EDUCAR-SE - A GRAMÁTICA NO DIA A DIA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Dilson Catarino 
No início do ano letivo, todos os estudantes, sejam do Ensino Fundamental, Médio ou Superior, sejam das áreas humanas, exatas ou biológicas, têm uma preocupação a mais no seu cotidiano: a Língua Portuguesa. Ela passa a ser usada nos quadros-negros das salas de aula e nos cadernos e fichários dos alunos. Constantemente professores e alunos se deparam com dúvidas gramaticais e sentem dificuldades em dirimi-las. Quero, por isso, nas próximas semanas, aproveitar este espaço e, já que leciono a Língua Portuguesa há mais de trinta anos, apresentar alguns casos gramaticais que suscitam dúvidas à maioria. Comecemos, então, pela frase apresentada como título do texto de hoje:
A gramática no dia a dia.
Em virtude da Reforma Ortográfica, algumas palavras perderam o hífen. É o que acontece com as locuções em geral: palavras compostas por três palavras (dois substantivos entremeados por uma preposição - a, de... - ou conjunção - que) não mais são escritas com hífen, a não ser que se formem nomes de espécie botânica ou zoológica, ou seja uma das seguintes exceções: água-de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito e pé-de-meia.
Eis alguns exemplos de espécie botânica ou zoológica: cana-de-açúcar, pimenta-do-reino, cachorro-do-mato, aranha-de-jardim, coco-da-baía (assim mesmo, sem H), banana-da-terra, etc. As espécies botânicas e zoológicas sempre terão hífen, sejam formadas por duas, três ou mais palavras: mico-leão-dourado, erva-doce, cheiro-verde, aranha-armadeira, peixe-mulher (a fêmea do peixe-boi), boto-da-baía-de-guanabara, etc.
Eis alguns exemplos de palavras que perderam o hífen: pé de moleque, água de coco, água de cheiro, à toa, dia a dia, pé de pato, tênis de mesa, ponto e vírgula, caixa de fósforos, etc.
Se houver a preposição 'de' com apóstrofo (d'), o hífen será obrigatório: pé-d'água, caixa-d'água, estrela-d'alva, galinha-d'angola.
Mussarela, muçarela ou mozarela?
Esse vocábulo provém do italiano mozzarella, diminutivo de mozza, cujo significado é leite de búfala ou de vaca talhado com sp. de fungo chamado mozze.
Muito bem. Então, do italiano mozzarela, com dois zês, surgiu, no nosso idioma, a palavra mozarela, com um zê só, já que na nossa língua, não há a duplicação de consoantes, salvo raras exceções.
Há uma convenção ortográfica na Língua Portuguesa que transforma o z em c ou em ç: feliz - felicidade; capaz - capacidade. Da palavra mozarela surgiu a variante muçarela, com o cê cedilhado, em virtude dessa convenção.
Talvez, por a palavra italiana ter dois zês, nós, brasileiros, tenhamo-los simplesmente trocado inadvertidamente por SS. É, porém, inadequado ao padrão culto da língua escrever mussarela.
O adequado é - se quiser escrever de acordo com a norma culta, logicamente - escrever muçarela ou mozarela.
Zero reais
Numa propaganda televisiva de um cartão de crédito, cujo ápice é a frase não tem preço, o locutor diz várias vezes zero reais. É assim mesmo que se estabelece a concordância? Reais? A resposta é não, já que o numeral zero não representa pluralidade de elementos, e sim a total ausência de quantidade e corresponde a um conjunto vazio. Se não há pluralidade, toda concordância com esse termo da oração deve ser realizada no singular. Veja alguns exemplos:
Fez zero grau nessa madrugada. À zero hora de 20 de fevereiro, o horário de verão se encerrou. Comprei um carro zero-quilômetro (zero-quilômetro, com hífen!).
É importante que o estudante saiba que essa concordância se mantém quando houver numerais decimais, ou seja, em numerais em que haja a vírgula, a concordância se efetivará com o número que esteja antes da vírgula. Veja alguns exemplos:
0,5 mol, e não 0,5 moles. 1,5 quilo. 2,1 metros.
O locutor da propaganda não deveria, então, dizer Zero reais, e sim Zero real.
Obrigado
Obrigado, particípio do verbo obrigar, em agradecimentos é adjetivo, cujo significado é aquele que se sente devedor de um favor, de uma amabilidade; agradecido, grato. Significa, portanto, sentir-se obrigado a alguém por algo. Por ser adjetivo, deve concordar com o elemento a que se refere em gênero e número, ou seja, será masculino ou feminino, singular ou plural, conforme pessoa que se sentir obrigada a retribuir algo.
Um homem, portanto, deve agradecer, usando a palavra obrigado; uma mulher, obrigada; um homem, em nome de outras pessoas, obrigados; uma mulher, em nome de outras pessoas de ambos os sexos, ou em nome de outros homens, obrigados; uma mulher, em nome de outras mulheres, obrigadas.
Uma formanda de escola em que só estudam mulheres, em seu discurso de formatura deveria dizer 'obrigadas', já que agradece não só por si, mas em nome de todas as alunas, que estão agradecidas, gratas, obrigadas.
E a resposta a um agradecimento? No Brasil, há o costume de retribuir com um Obrigado você, que é inadequado ao padrão culto da língua. O adequado é responder da seguinte maneira:
Obrigado eu, se for um homem. Obrigada eu, se for uma mulher. Obrigados nós, se o falante representar várias pessoas de ambos os sexos ou somente homens. Obrigadas nós, se a falante representar várias mulheres.


