EDUCAR-SE - A GAROTA QUASE PERFEITA
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
DILSON CATARINO 
Madelaine era mãe de Rebeca, filha única, garota amabilíssima, respeitosa, estudiosa e muito bem-educada. Nunca, em sua vida estudantil, foi repreendida por professor algum; seu comportamento em sala de aula era impecável; fora da sala de aula também. Jamais seu boletim escolar registrou nota abaixo de 75. Ano a ano era considerada o melhor aluno da sala (''o melhor aluno'', porque obtinha as melhores notas dentre todos os alunos, não somente dentre as meninas; se assim o fosse, seria ''a melhor aluna''). Suas tarefas e trabalhos mais pareciam parte de uma exposição de obras-primas de algum artista incipiente do que tão somente destinados a uma breve avaliação do professor ou da professora, que, invariavelmente, lhe davam a nota máxima. Ela era perfeita, ou quase perfeita, já que, como se sabe, existem duas coisas que jamais ser humano algum atingirá: a felicidade e a perfeição. Temos, porém, de buscá-las incessantemente, mesmo sabendo serem inatingíveis; esse é o motor da nossa existência. Buscamos as virtudes que nunca atingiremos, mas, se pararmos de buscá-las, atingiremos o seu oposto, ou seja, as desvirtudes imperfeição e infelicidade.
Rebeca estava no apogeu, prestes a experimentar o impossível: a perfeição e a felicidade. Nada interpunha obstáculo entre ela e as duas virtudes maiores. Seus pais a tinham como o modelo de rebento. Os amigos deles os invejavam - no bom sentido, lógico! - sempre a comparando com seus filhos e filhas cheios de defeitos e problemas, e, por isso mesmo, ralhando com estes mais do que o habitual, pois queriam-nos como ela, que, sem saber e sem querer passou a ser desprezada por alguns desses rapazes e moças; principalmente pelas moças. Os adultos que tinham filhos homens da idade dela queriam-na como uma possível futura nora. Seria a mãe ideal para seus netinhos. É sabido, porém, que os adultos às vezes não enxergam a realidade, mas sim criam uma realidade própria.
UM ANJO
Foi o que aconteceu com os pais de Rebeca, pois, como viam sua filhinha tal qual um anjo, como tal a tratavam. Ela tinha privilégios que os demais de sua idade não tinham: podia faltar à aula em vésperas de feriado, tinha as melhores roupas e calçados, ''navegava'' na internet duas, três horas por dia, às vezes mais, sem fiscalização de ninguém, assistia à televisão até a hora que bem entendesse, às vezes indo dormir depois dos pais, pois ficava a assistir a algum programa de seu interesse, tomava refrigerantes todos os dias às refeições, tinha lap top apesar de o computador de casa já ser suficiente para suas necessidades e mais, muito mais. Uma coisa, porém, temos de dizer a favor de seus pais: jamais a presentearam gratuitamente; presentes somente em datas especiais: aniversário, páscoa, dia das crianças, Natal e um ou outro acontecimento superespecial. Também jamais trocaram nota na escola por presente algum. Julgavam que as notas eram responsabilidade dela; era um dever dela tirar boas notas, o que, como já sabemos, ela conseguia muito bem.
Quis o destino, porém, que Cláudia, uma garota que se havia mudado há pouco tempo para a cidade de Rebeca, estudasse na mesma sala de aula e se sentasse na cadeira vizinha à dela. Como tinham de fazer um trabalho, e Cláudia havia acabado de chegar, Rebeca gentilmente a convidou para juntas elaborarem tal trabalho. Assim aconteceu, e, como era de se esperar, tiraram nota máxima. Nesse dia, iniciou-se o martírio de seus pais. Conto-lhes o que sucedeu:
Rebeca levou Cláudia para fazerem juntas o trabalho, mas quem o fez foi ela, sozinha. A amiga engabelou-a a tarde toda: levantava-se, sentava-se, ia até a cozinha ajudar a mãe de Rebeca a fazer o suco, mexia e remexia em sua mochila à procura sabe lá Deus de quê, enfim, só ''enrolou''. O trabalho, porém, fora terminado à perfeição, e Rebeca colocou o nome da menina, pois se sentiu obrigada.
A TRANSFORMAÇÃO
A tal menina nunca havia conseguido boas notas. Fora o primeiro dez de sua vida. Sua mãe, feliz pela mudança, julgando que seria um novo começo estudantil, deu-lhe um celular de recompensa. Não foi um celular qualquer; foi o cobiçado por Rebeca, que teria de esperar até o Natal para tê-lo. Aí se deu a transformação: Ela exigiu que sua mãe também lhe desse a recompensa e foi prontamente atendida! E estava estabelecido o problema. A gentil garota, respeitosa e bem-educada, descobriu que poderia conseguir tudo o que desejasse se exigisse, se ameaçasse. Percebeu o que já estava claro: sua educação era um equívoco, pois seus pais não a educavam, mas sim a cultuavam. Ela era o poder e se transformou num tirano.
A partir desse episódio, Rebeca usou seu poder desmedidamente. Tornou-se malévola e descortês e passou a ter uma supervaloração mórbida de si mesmo. Transmudou-se da garota quase perfeita e feliz para um ser nada perfeito e mais próximo da infelicidade.


