EDUCAÇÃO INCLUSIVA Aprendendo com as diferenças
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de junho de 2003
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Joyce Aparecida Bueno é uma dos alunos especiais acompanhados pelo projeto da APS/Down
Sueli Gomes Brenzan e Sandra Helena Tolardo Francisco: ''É preciso que as pessoas estejam dispostas a conviver com a diferença''
Aos 13 anos, Joyce Aparecida Bueno é aluna da 2 série da Escola Municipal Santos Dumont. Portadora de Síndrome de Down, ela é a primeira aluna especial da escola. Bastante ativa e alegre, está tendo a oportunidade de ter o seu desenvolvimento em uma escola regular e não em escolas especiais. No ano passado, quando foi matriculada, a escola teve uma postura de resistência, mas hoje reconhece que a experiência tem sido gratificante.
''Aceitamos a matrícula porque era nossa obrigação, mas tínhamos medo de não saber lidar com esse tipo de situação'', conta a supervisora educacional Estela Maria Frederico Ferreira. A primeira professora de Joyce, Ceila de Camargo Valle, admitiu que no início também ficou assustada. ''Tive muito receio, mas, ao me aprofundar no trabalho, vi o quanto era enriquecedor. A aceitação das crianças foi surpreendente e ela também correspondia muito bem ao aprendizado'', destacou Ceila. A professora lembra que comentários dos pais das outras crianças questionando a possibilidade de uma criança deficiente atrapalhar a rotina de sala de aula eram comuns, mas que foram perdendo o sentido com o andamento do trabalho. ''As crianças se adaptaram bem e ficaram mais solidárias. O preconceito vem do adulto'', afirmou Ceila.
Joyce é uma dos 43 alunos especiais acompanhados pelo projeto de educação inclusiva desenvolvido pela Associação de Pais e Amigos dos Portadores de Síndrome de Down de Londrina (APS/Down), em Londrina, única do Sul do País que faz esse trabalho de inclusão. Em funcionamento há três anos, o projeto viabiliza contato com a escola que irá receber a criança especial e fornece base de apoio, consolidando-se como uma facilitadora do processo de inclusão. Uma equipe multidisciplinar, incluindo psicopedagoga, pedagoga, psicóloga e assistente social, faz palestra de orientação com os professores da escola e visita quinzenal para acompanhar o desenvolvimento da criança. A sede da associação, que antes funcionava como uma escola especial, hoje oferece reforço escolar, além de atendimento terapêutico.
''A escola especial é contrária à idéia da inclusão. Ela é uma situação cômoda até para os pais dessas crianças, que não precisam rever os seus próprios conflitos e a desconfiança de que a criança não se adapte'', afirmou a diretora-geral da associação, Sandra Helena Tolardo Francisco. Nas escolas, Sandra afirma que o excesso de ansiedade e a falta de informação de como lidar com o diferente muitas vezes prejudica o processo de inclusão. ''Muitas vezes, as escolas tentam driblar a lei dizendo que não têm vaga. Entendemos que a inclusão não é fácil, mas é possível desde que as pessoas estejam dispostas a conviver com a diferença'', defende Sandra.
Na opinião da diretora pedagógica da entidade, Sueli Gomes Brenzan, é importante focar na individualidade da criança. ''Não se pode levar em consideração a idade cronológica dessas crianças e, sim, a faixa de desenvolvimento. O ritmo de aprendizagem não está dentro do padrão ''normal'', mas ele acontece e melhora a qualidade de vida dessas pessoas.''
Determinada por lei, a inclusão de pessoas portadoras de deficiência no ensino regular ainda encontra resistência por parte das escolas e da sociedade como um todo. Essa é a avaliação da presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (CMPPD), Martinha Clarete Dutra dos Santos. ''Não há uma política pública de atenção à pessoa com deficiência na cidade. O governo atual tem sensibilidade para discutir o assunto, mas precisamos avançar'', afirma.
O conselheiro tutelar Idauto José de Almeida também critica a falta de um sistema mais eficiente de inclusão. No conselho, chegam reclamações de pais que não conseguem vagas em escolas para os filhos de deficientes, e também de escolas que não querem a presença de adolescentes sem deficiência, mas ''fora do padrão'' de comportamento. ''Dá para perceber que a questão da inclusão é mais ampla, e que as escolas, de modo geral, não estão preparadas para lidar com o diferente, que necessita de atendimento mais especializado'', afirmou.
''A inclusão ainda é inexpressiva e a maioria dos deficientes frequenta o ensino supletivo por não conseguir se inserir no ensino regular. Falta conscientização da sociedade e investimento público para ampliar esse processo, que é um direito que garante cidadania. O trabalho ainda está muito voltado para as entidades filantrópicas ou assistencialistas, quando deveria ser cumprido pelo poder público'', argumenta Martinha.
Segundo a Secretaria de Educação, há 350 crianças deficientes matriculadas no ensino regular municipal, sendo 135 frequentadoras de classes especiais. Na rede estadual, são 78 crianças e jovens já incluídos no ensino regular.
Para a secretária de Educação, Mágda Madalena Tuma, a maior dificuldade é que a formação dos professores não supre a necessidade desse tipo de atendimento. Mas, adianta, a secretaria está disponibilizando cursos de formação continuada para a educação inclusiva. Ela discorda da idéia que a inclusão na cidade seja ''inexpressiva''.
''Estamos melhorando e nenhuma escola está autorizada a recusar a matrícula de criança especial'', destacou. Ela também informou que o Fórum para Educação Inclusiva, criado em 2001, realiza reunião todo o início de mês e que ela é aberta a participação da comunidade. O local e data podem ser verificados na própria secretaria. Outra medida apontada por ela como facilitadora da inclusão do deficiente no ensino regular é que onze escolas municipais estão sendo reformadas para a retirada de barreiras arquitetônicas.
Mais informações sobre educação inclusiva no Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (3334-2525), Conselho Tutelar (3321-6748) e Secretaria da Educação (3372-4087).


