EDUCAÇÃO E ARTE - O hip hop vai à escola
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terça-feira, 04 de novembro de 2003
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
O equipamento de som é potente; as roupas, despojadas; a linguagem, cheia de gírias e eles estão nas escolas. Quem são? Integrantes do Movimento Hip Hop Organizado que desde o início do ano estão engajados em uma série de palestras em escolas de Londrina. A idéia surgiu como uma forma de ''levar mais informação e gerar um impacto social'', explicou Gilmar Vilela Sutil, o MC Pirata, do SOS Atitude, grupo de hip hop da região sul. Convidados pelos diretores das escolas, muitas vezes motivados com a idéia de que a troca de experiência pode ajudar na conscientização da violência, o trabalho vem ganhando expansão.
Recentemente, o movimento hip hop se apresentou na Escola Estadual Nilo Peçanha, no centro da cidade, durante a 3 Semana de Sociologia e Filosofia para o Ensino Médio. Na oportunidade, alunos e professores puderam conhecer mais de perto um movimento cultural que nasceu na periferia. O hip hop vem ganhando destaque desde que passou a integrar a Rede da Cidadania, há três anos, como parte das atividades culturais desenvolvidas como política cultural pública. Atualmente, os grupos estão buscando mais autonomia e viabilizando uma organização não governamental (ONG) para dar continuidade aos trabalhos. O hip hop também está se tornando fonte de geração de renda, com alguns integrantes montando grifes de moda para divulgar o seu estilo.
''É a primeira vez que estamos recebendo o movimento hip hop aqui na escola e acho importante essa troca de vivências. Não estamos tendo problemas com violência, mas acho que o dia-a-dia da sala de aula fica muito limitado. Precisamos aproveitar essa oportunidade para diminuir os nossos preconceitos. Conhecer algo diferente para aprender a valorizar'', ressaltou a supervisora pedagógica da escola Rosilda Luci Pereira Salles.
Nas palestras, são destacados os ''quatro elementos'' que caracterizam a cultura hip hop: MC (''Mestre de Cerimônia''), DJ (''Disk Jockey''), B.Boy (''dançarino'') e grafiteiro (responsável pela ''arte visual''). O objetivo é mostrar o potencial de comunicação de cada linguagem e do quanto elas se interagem. ''Tem pessoas que confundem rap com hip hop. Rap é um ritmo de música, enquanto o hip hop é um movimento cultural, com caraterísticas próprias'', argumentou Marcelo Silva, conhecido como ''Banana'', que é MC do grupo Revolução Zona Sul. ''E por causa do rap, tem muita gente que associa o hip hop com violência, mas procuramos mostrar as músicas que fazem uma crítica à violência e, não, a sua apologia'', acrescentou.
Conscientizar sobre o resgate da auto-estima através do hip hop também é um dos pontos fortes do trabalho. ''Debatemos sobre a violência, falamos sobre a realidade da vida e da responsabilidade de cada um em não praticar a violência'', defendeu o Washington Luís dos Santos, MC do Grupo Tribunal-X, da região Sul.
Com as pick-ups em cena e coreografias que chamam a atenção pela agilidade e coordenação, os alunos se aglomeraram e não perderam nenhum movimento. Ao som de ''Billy Jean'', sucesso de Michael Jackson, na década de 80, também puderam observar as mixagens coordenadas pelo DJ Kaloy. Rodrigo Ferreira Maciel, 20 anos, aluno do 2º colegial, aprovou a iniciativa da escola: ''gosto muito dos quatro elementos. Tem muita gente que não conhece a ideologia do movimento e critica. É legal a escola trazer isso mais próximo das pessoas'', afirmou. Já Gisele Cristina Martins do Nascimento, 15 anos, aluna do 1º colegial nunca tinha visto uma apresentação de hip hop. ''Gostei do que vi. Eles têm personalidade, se vestem de forma diferente e, por isso, às vezes, passam a imagem de violência. Acho importante conhecer vários estilos.'' Anderson Martins Camargo, 13 anos, aluno da 7 série, achou os movimentos das coreografias ''legais e difíceis''. ''Não conseguiria fazer o que eles fazem'', comentou.
Mais afastada do grupo, sentada em uma escada da escola, a aluna Elizabeth Vasconcelos Aparecido, 15 anos, aluna do 1º colegial, observava com certa reserva a atuação dos integrantes do hip hop. ''Não gosto desse estilo. Gosto de música romântica. Nada contra, mas não curto.'' Segundo ela, a maioria dos seus amigos gostava, mas ela não tinha informações mais detalhadas sobre eles. ''Acho o pessoal do hip hop estranho, não andaria com as roupas que eles vestem e não sei porquê eles têm que usar gírias. É tudo muito diferente. Não acho conveniente trazê-los para escola, embora tenha aprendido que eles também fazem um trabalho legal de conscientização'', concluiu.


