Você já imaginou uma escola sem salas de aulas formais, provas, divisão por séries ou faixa etária e que serve de referência de qualidade na educação? Sim, ela é possível e há 27 anos está em funcionamento na cidade do Porto, em Portugal. Na Escola da Ponte, as próprias crianças decidem em assembléia os assuntos que querem estudar, dentro do programa de conteúdos apresentados pelos professores, e as avaliações são feitas em cima dos resultados dos trabalhos realizados quinzenalmente. As crianças estudam em grupo, em amplas salas de aula, e nunca têm aulas expositivas, com um único professor. O clima da escola é de autonomia e não tem sinal para entrada, saída ou troca de aulas. Elas mesmas se autogerenciam e avisam umas às outras sobre os horários. Aprender a perceber as próprias limitações e o senso de solidariedade é estimulado desde cedo. Nos murais da escola, cartazes com ''Preciso de ajuda em..'' e ''Posso ajudar em...'' demonstram essa idéia.
A escola, que é pública e atende principalmente crianças de baixa renda, oferece ensino da 1 a 6 séries e nos provões aplicados pelo governo, os alunos da Ponte se destacam. Reconhecida internacionalmente, a escola foi bem retratada no livro ''A escola que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir'' (Papirus Editora), do educador brasileiro Rubem Alves.
Para falar mais sobre essa experiência, esteve em Londrina, no dia 31 de julho, o idealizador dessa escola, o educador José Pacheco, que proferiu a palestra ''Construindo a Escola Viva'' a cerca de 300 professores. Ele veio à convite da Escola Interativa, que aproveitou a participação do professor em eventos educacionais em Campinas, Curitiba e Foz do Iguaçu.
''Trabalhamos para termos crianças mais sábias e felizes'', comentou Pacheco, que antes de se dedicar ao magistério, formou-se em Engenharia Eletrônica. Adepto de um modelo pedagógico que valoriza o desenvolvimento da sensibilidade afetiva e emocional, ele cita, como exemplo, a inclusão de música clássica em todos os ambientes da escola. ''Isso tem uma função estética, ajuda a expandir a sensibilidade das crianças'', diz. A música também serve para ensinar as crianças a controlarem o tom da voz. Quando elas estão falando muito alto, o som da música é reduzido.
Pacheco destacou que as mudanças nas práticas pedagógicas nas escolas devem ser ponderadas, ''para não serem desastrosas'', e que ''não é contra o sistema formal'', pois é em cima dele que as mudanças podem acontecer. ''Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade'', citou frase da Clarice Lispector, que está gravada na entrada da escola.
Pacheco também ressaltou que, independente da crise que o sistema educacional formal vem passando, está havendo um período de profunda mudança, em que a educação está voltando-se para o ''princípio da espiritualidade para obter a excelência acadêmica''.
Entusiasmado com o interesse de várias escolas brasileiras em estarem aprendendo mais sobre a nova metodologia, Pacheco está planejando vir morar no Brasil em 2005 para assessorar as escolas que querem adaptar o métoda da Ponte.
Mais informações sobre a Escola da Ponte: www.iec.uminho.pt/nonio/ponte/ e www.atelier.hannover2000.mct.pt/~pr089

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