''A criança é o pai do homem''. Com essa frase emblemática do famoso psicólogo Winnicot, que pautou seus estudos e trabalhos pela educação das crianças, dá para se ter uma idéia da importância do brincar na infância.
Dentro de uma concepção psicológica, por trás do lúdico estaria toda uma representação de mundo extremamente necessária para se ter uma vida adulta saudável e equilibrada. Motivado por essa temática, o psicoterapeuta Fernando Barroso Zanluchi iniciou uma pesquisa em quatro escolas públicas de Londrina (duas estaduais e duas municipais) como parte de sua dissertação de mestrado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), defendida no ano passado. O resultado desse trabalho pode ser conferido no livro ''O Brincar e o Criar As relações entre atividade lúdica, desenvolvimento da criatividade e educação'', lançado recentemente.
E o que Zanluchi conferiu nas escolas públicas não difere muito da realidade das instituições de ensino particular, relatou o psicólogo. ''As escolas particulares podem até ter mais recursos materiais, mas os professores têm a mesma dificuldade dos mestres das instituições públicas em perceber a importância do brincar. Todos, no processo de sua formação acadêmica, não receberam informações suficientes e adequadas para conscientizarem-se que o brincar é coisa séria'', destacou Zanluchi.
Segundo o psicoterapeuta, a criança que não é estimulada a brincar pode ter a sua criatividade tolhida, além de problemas de socialização; e ele lembra que na psicanálise a brincadeira é uma importante ferramenta terapêutica. ''É através das brincadeiras que a criança expressa seu modo de ver o mundo e, consequentemente, a sua saúde mental. O brincar torna-se um laboratório para a vida.''
Com o aporte da teoria histórico-cultural, Zanluchi também faz um resgate das transformações que o sentido do lúdico foi passando no decorrer da história da civilização. ''De origem latina, a palavra lúdico, que vem de 'ludos', inseria ao mesmo tempo o sentido de aprendizado e divertimento. Hoje, ao contrário, os pais nem gostam que os filhos brinquem na escola'', comentou.
Fora do âmbito escolar, ele também pontuou que alguns pais chegam a reclamar que ''dá trabalho'' brincar com os filhos e que até estimulariam neles o consumo de brinquedos que possam ser jogados sozinhos. Para superar essa percepção errônea, sugere aos pais que entendam o brincar não como uma ''tarefa'', mas como ''uma expressão da alegria de estar junto''. ''A criança só está à mercê do eletrônico porque não tem com quem brincar'', defendeu Zanluchi.
Por outro lado, ele pondera que, fora os jogos violentos que promovem a agressividade gratuita e indiferenciada, os jogos eletrônicos também podem ser interessantes para o desenvolvimento da criança desde que os pais cumpram o seu papel de mediador e participem das atividades com os filhos, escolhendo conteúdos que sejam mais adequados a eles.
Entre as conclusões que tirou durante a pesquisa, Zanluchi atestou que a maioria das escolas não possui espaços adequados para a recreação e que quando as crianças têm a oportunidade efetiva de desenvolver a sua ludicidade voltam para a sala de aula mais tranquilas, relaxadas e atentas. ''Quando isso não acontece é que proliferam as brincadeiras agressivas e com conotação sexual. É um sinal de que não conseguiram se expressar'', acrescentou.
A abertura das escolas nos finais de semana também é apontada como uma boa alternativa para diminuir a depredação desses ambientes e melhorar a qualidade a relação do aluno com a escola. ''Infelizmente, a escola reflete o momento da sociedade atual e está cada vez mais se tornando uma fábrica de montagem padronizada'', alertou.
Em um tempo em que a competitividade e o individualismo são exacerbados até no processo educacional, Zancluchi define: ''Nascemos 'homo sapiens' e só nos tornamos humanos pela convivência''. ''As crianças de hoje têm mais dificuldade em brincar em grupo, o que também é uma demonstração de baixa auto-estima. É importante que a escola promova brincadeiras que valorizem a cooperação'', argumentou.
Sobre as milhares de crianças que por dificuldades econômicas são alijadas do brincar como as que trabalham precocemente em carvoarias ou vendendo doces em semáforos , Zanluchi não tem uma visão otimista. ''Tolher o brincar é amargar a vida, é tirar o espaço do criar. É formatar a cabeça para a submissão, para a impossibilidade de ser diferente. Exclui da criatividade o seu potencial subversivo'', concluiu.

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