EDUCAÇÃO - ARTISTAS EM CONSTRUÇÃO
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de novembro de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Os alunos tem idades diferentes. Apenas em uma das aulas é possível encontrar uma criança de sete anos e uma senhora de 46. Também há adolescentes de 13, 15 anos. Um grupo que seria pouco provável que se encontrasse voluntariamente em qualquer outro lugar, não fosse por um interesse em comum: a pintura. Outra afinidade é que todos são moradores da Vila das Torres, uma comunidade de baixa renda próxima ao Centro de Curitiba. Ali, em um Clube de Mães mantido pela prefeitura da cidade, acontece o improvável: alunos de faixa-etária diferentes se encontram para aprender técnicas da pintura. Alguns, pouco sabem sobre os grandes mestres das artes plásticas, como é o caso da dona de casa Gleusa de Freitas, de 46 anos.
Depois de criar quatro filhos, que têm atualmente entre 5 e 27 anos, ela resolveu entrar para o curso de pintura ao saber, quase sem querer, das aulas ministradas na comunidade. Quando essa reportagem foi realizada, era a sua segunda aula e ela já reproduzia, com perfeição, uma paisagem escolhida em uma revista. ''Eu não sabia que podia desenhar. Acho que só desenhei quando era criança'', diz. Gleusa revela não conhecer nenhum pintor famoso. ''Picasso?'', ela pergunta para responder em seguida: ''Já vi alguma coisa na televisão'', e logo volta a se dedicar ao seu primeiro desenho depois de anos sem tentar reproduzir uma figura.
Entre os alunos, outras surpresas. O garoto Luiz Fernando Cardozo, de 13 anos, cita sem titubear os grandes mestres da pintura. Enquanto a maioria dos alunos responde que não lembra direito o nome dos pintores que conhecem, o garoto se empolga: ''Tem o Van Gogh, Gauguin; Aldemir Martins, aquele que desenha gatos, né?''. O menino, que sonha em ser jogador de futebol e ''pintar nas horas vagas'' é o aluno mais antigo da turma. Começou a frequentar as aulas há um ano e meio e diz achar que isso mudou até sua personalidade. ''Sabe, eu era muito bagunceiro. No lugar dos prêmios por ser um bom aluno na escola, trazia bilhetes da professora dizendo que não estava me comportando bem'', conta.
''Mas você acha que a pintura te ajudou a mudar''? Pergunta a reportagem. ''Claro. Eu gosto de pintar animais, paisagens que me tragam paz e com isso fiquei mais calmo''. Ele e o irmão Luiz Felipe, de 10 anos, frequentam juntos às aulas e mesmo quando têm que se revezar nos cuidados da irmã mais nova, de 5 anos, não faltam ao curso. ''Um vem na primeira metade da aula e o outro vem na segunda'', diverte-se a professora, Maria de Lourdes Baratto do Prado, a Malu, de 56 anos. É ela a responsável pela empreitada que está fazendo com que crianças, jovens e adultos sonhem com tintas, pincéis e telas e, ainda melhor, com um futuro nas artes plásticas.
Malu nunca frequentou aulas de pintura e atribui a um ''dom divino'' o conhecimento que tem na pintura. Ela conta que numa viagem que fez ao Rio Grande do Sul, em 2000, tirou algumas fotografias de paisagens belíssimas, que lembravam a sua infância. ''Só que quando voltei para Curitiba vi que o filme estragou e não consegui revelar nenhuma foto''. Então, ela decidiu pintar um quadro com a lembrança e a obra saiu perfeita. ''Foi assim que aprendi a pintar''. Mas Malu não guardou o dom para si. Funcionária da prefeitura na área administrativa, ela decidiu integrar o projeto ''Fazendo Arte'' e dar aulas para algumas comunidades, como já frequentava o Clube de Mães da Vila das Torres, dar aulas ali foi seu primeiro desejo.
No início, ela mesma trazia de casa as próprias tintas e pincéis para ensinar aos alunos. Hoje, ela e algumas mantenedoras do Clube conseguiram apoio da Secretaria de Estado da Cultura e já recebem tintas, pincéis e telas para distribuir aos alunos. ''Mas mesmo assim a gente tem que fazer um pouco de mágica, sabe?'', conta enquanto mistura duas tintas para tentar fazer uma cor solicitada por um aluno e que não tinha no material disponível.
As aulas são ministradas numa pequena sala no Clube de Mães. Ao fundo, a comunidade Vila das Torres, na frente a Avenina das Torres, uma das mais movimentadas de Curitiba e que leva ao Aeroporto Afonso em São José dos Pinhais, Região Metropolitana. Uma das avenidas mais temidas pelos motoristas por causa dos constantes assaltos. Uma realidade bem distinta do que acontece naquela pequena sala de aula, onde alunos de todas as idades se confraternizam e trocam idéias sobre um mesmo tema: a pintura. ''Para mim, isso aqui é um sonho realizado. E um sonho sonhado em conjunto'', conclui Malu.


