''Quero aprender para poder ler a Bíblia''. O desejo comum move Ana Natalina Souza Justino, 68 anos, e Alaide Capelari, 69. Quando crianças, elas não puderam estudar e agora buscam recuperar o tempo perdido aprendendo as letras e números no programa Educação de Jovens e Adultos (EJA) em Londrina. Alaide e Ana Natalina estão entre os mais de 16 milhões de brasileiros, entre eles 24 mil londrinenses, que entram na computação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como analfabetos. A maioria tem mais de 40 anos e não teve a oportunidade de estudar quando criança.
Hoje, andam pelas ruas sem conseguir ler as placas; desconhecem livros, revistas, gibis; não escrevem cartas nem bilhetes. Aliás, a vontade de se comunicar com a filha por carta é outro motivo apontado por dona Ana Natalina para retomar os estudos. ''Ela mora longe e eu tinha muita vontade de escrever para ela'', diz.
Apesar de contar com milhares de analfabetos, Londrina tem posição privilegiada em relação ao Brasil. A média nacional indica que 13% das pessoas acima de 15 anos não sabem ler e escrever. Por aqui, as estatísticas apontam que 6,3% dessa população são analfabetos. Dados do IBGE detalham que 5,4% dos homens londrineses são analfabetos e, entre as mulheres, esse percentual sobe para 8,6. Na zona urbana há 6,8% de analfabetos e, na zona rural, 16,9%.
Existe ainda uma outra categoria, chamada de Analfabetos Funcionais, que abrange as pessoas que tiveram no máximo quatro anos de estudo. Segundo o IBGE, 27,3% da população brasileira se enquadra nessa definição. Mas uma pesquisa feita pela Fundação Montenegro/Ibope revela que esse percentual chega a 67%. Os critérios diferentes utilizados pelos institutos originou dados tão divergentes. Em Londrina, a estimativa é que existam mais de 60 mil analfabetos funcionais, o que corresponde à 18,4% da população, segundo o IBGE.
Elza Alexandre, 51 anos, se enquadra nesse perfil. Ela retormou aos estudos pelo EJA e está fazendo uma revisão do 4º ano do ensino básico. ''Agora não posso nem pensar em perder essa oportunidade. É muito maravilhoso, me sinto uma adolescente'', ressalta.
O elevado número de pessoas com defasagem na educação escolar coloca o Brasil apenas em 73º colocado no quadro que determina o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e a taxa de analfabetismo em todo o mundo. Países como Noruega e Espanha possuem taxa zero de analfabetismo. Mais próximos ao nosso país, Argentina e Chile estão bem melhor colocados com taxa de analfabetismo de 3,2 e 4,2% respectivamente.
Mas a situação já foi bem pior. Há décadas o Brasil vem lutando para erradicar o analfabetismo com projetos que ensinam adultos a ler e escrever. Para se ter idéia, em 1900, 65,3% da população brasileira era analfabeta. Cinquenta anos depois, esse índice se mantinha elevado, em 50,6%, caindo para 25,9% em 1980 e 13,6% em 2000. Porém, apesar dos esforços, ainda é grande o número de pessoas que precisam de ajuda até para procurar um número de telefone na lista ou ler um placa indicando o nome da rua. Essa matéria que você está lendo agora, por exemplo, é uma atividade impossível para muitos brasileiros.
Por isso, vários projetos seguem em desenvolvimento por todo o país. O EJA está em Londrina desde 1989. Atualmente, 2,5 mil londrinenses estão sendo alfabetizados por ele, que custa R$ 1,062 milhão por ano ao município. Das 42 escolas em que é desenvolvido o EJA, seis estão na zona rural e as outras 36 na área urbana. O programa inclui estudos até o 4º ano do ensino básico e disciplinas como português, matemática e estudo da sociedade e da natureza, que engloba geografia, história e ciências.
A gerente de educação de jovens e adultos em Londrina, Elaine Fátima Souza de Carvalho, conta que um grande problema enfrentado pelo EJA é a evasão dos alunos. Os motivos vão desde um evento que está acontecendo na cidade e atrai mais que a sala de aula, como a Exposição Agropecuária, até situações pessoais como não ter com quem deixar o filho e doença na família.
Para a secretária municipal da educação, Carmem Bácaro Sposti, ''não dá para entender uma pessoa analfabeta no mundo de hoje''. Ela enumera que o analfabeto acaba não conhecendo seus direitos e deveres, tem dificuldades de ir e vir e precisa sempre de alguém para dar instruções. ''É uma questão de cidadania mesmo'', enfatiza. Ela também aponta a evasão como uma dificuldade na alfabetização adulta e expõe que é preciso antes de tudo a conscientização dos ''alunos''. ''Como não existe a obrigatoriedade e ele é o dono da vida dele, acaba abandonando os estudos por qualquer motivo'', detalha.
A tendência é que o problema do analfabetismo diminua nas próximas décadas. Carmem lembra que hoje cerca de 98% das crianças londrinenses estão na escola. ''Por falta de vagas, não há criança fora da escola'', garante. Em relação ao analfabetismo funcional, a secretária observa que é preciso fazer um censo educacional detalhado que defina números.

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