São Paulo, 23 (AE) - As fotografias que Edouard Fraipont expõe a partir de amanhã (24) à noite, em sua primeira exposição individual, parecem pertencer ao campo da ficção. Povoadas por figuras de contornos pouco definidos e marcadas por uma cor intensa e sedutora, esses trabalhos são como representações carregadas de emoção, que não se pretendem fiéis à realidade. Pelo contrário, o trabalho que Fraipont vem desenvolvendo nos últimos três anos é resultado de sua decepção com a foto documental, em preto-e-branco, a qual dedicou vários anos.
"Eu acreditava ainda no poder da fotografia de falar a verdade, algo que foi se perdendo cada vez mais", conta o artista. Esse seu incômodo com o registro teoricamente neutro intensificou-se durante suas peregrinações por países latino-americanos como Bolívia, Chile e Peru. "Eu ia fotografando os outros e comecei a ter conflitos com essa invasão de privacidade, me sentia mal fazendo isso". Ele diz que antigamente achava que estava falando a verdade, mas hoje confessa ter mais dúvidas do que verdades.
O resultado foi que Fraipont acabou se voltando mais para si mesmo, transformando-se no principal objeto de seus retratos. Não se trata, no entanto, de um mergulho autocentrado, narcísico, até porque na maioria dos trabalhos não é possível perceber que ele é o retratado. O que se vê é mais um vulto, uma massa de cor disforme que acaba suscitando uma certa espiritualidade. Fraipont evita entrar nessa questão.
Apesar de concordar que realmente existe uma dimensão espiritual em seu trabalho, afirma que essa leitura vai depender do olhar de cada espectador em relação ao seu trabalho. "Eu não retrato almas", afirma ele, concluindo que o que mais o atrai na sua linha de pesquisa atual é a possibilidade de "trabalhar com mais sinceridade, de mentir menos". Apesar de toda a subjetividade de seu trabalho e de ter se afastado da fotografia convencional, Fraipont ainda julga que faz uma obra de registro.
"Talvez não de uma realidade externa, mas sempre existe em meu trabalho o gesto e sua expansão diante da câmera", explica. Fraipont também nega a influência do cinema - sua formação universitária - e da pintura e afirma-se acima de tudo como fotógrafo. Profissão que ele continua a exercer como free lance para financiar sua subsistência e sua arte. Às vezes, esse registro é mais calculado, como no trabalho "Intermédios", escolhido para ilustrar o convite da mostra (que, aliás, não conseguiu nem de longe reproduzir o impacto cromático da obra) e que propositalmente transforma o corpo do artista numa tênue massa de luz em meio a um campo de intenso azul.
Por vezes o acaso interfere de forma mais incisiva, como na solitária e vermelha imagem de um abajur sobre uma mesa, a única foto de objeto entre as 13 que Fraipont expõe na Casa Triângulo. Esse trabalho também é uma espécie de homenagem à luz
que pode ser interpretada como um símbolo da criação num sentido amplo - na vida e na fotografia. Afinal, toda a atmosfera e as intensas cores de sua obra são resultado da manipulação da luminosidade e da utilização de foco deturpado. Ele não utiliza nenhum outro processo artificial, a não ser uma ou outra "puxada" no filme, como interferências computadorizadas ou filtros.
Algumas vezes, a primeira revelação chega até a ser feita naquelas máquinas automáticas, como as que revelam seu filme em apenas uma hora. SERVIÇO - Edouard Fraipont. De segunda a sexta, das 11 às 19 horas; sábado, das 11 às 15 horas. Casa Triângulo. Rua Bento Freitas, 33, tel. 220-5910, São Paulo. Até 14/7.

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