Fazia muito frio em outubro de 1988, em Frankfurt, quando 20 editoras brasileiras disputavam o direito de publicar no Brasil o livro ‘‘A Fogueira das Vaidades’’, de Tom Wolfe. Dez anos depois, já não é com casacos pesados que circulam os visitantes de Frankfurt em outubro. Hoje, quando começa a 50ª edição da Feira do Livro local, os termômetros marcam entre 18 e 21 graus C.
A temperatura mudou, já não se fazem mais leilões com 20 editores brasileiros, mas o título do livro de Tom Wolfe se tornou o apelido mais frequente da maior feira literária do mundo.
Este ano, as labaredas de Frankfurt diminuíram um pouco de tamanho. O número de expositores, que vinha crescendo desde 1992, caiu de 9.587 para 9.440.
Uma das editoras ausentes este ano em Frankfurt será a brasileira Nova Fronteira, que publica livros de autores como João Cabral de Mello Neto e Cecília Meireles, além do dicionário ‘‘Aurélio’’.
A editora carioca ‘‘se fazia representar, com poucas interrupções, desde 1966’’, diz o superintendente da empresa, Carlos Barbosa. Segundo ele, a prioridade da Nova Fronteira este ano não é comprar, mas ‘‘criar mercado’’. ‘‘Isso é mais fácil na Argentina do que na Alemanha’’, diz, e emenda com um hesitante ‘‘concorda?’’. Assim, a editora partiu para outras fronteiras literárias. Não vai a Frankfurt, mas estará em Buenos Aires e Guadalajara (México). Mas a ‘‘geopolítica’’ proposta pela editora ainda não tem muitos entusiastas. Titãs editoriais como a Record e a Companhia das Letras ainda apostam em ‘‘criar mercado’’ dentro dos 184 mil metros quadrados (equivalente a três Anhembis) da feira alemã. Para tanto, as duas editoras elaboraram kits com folhetos que explicam em inglês, idioma oficial da feira, características dos autores nacionais que publicam. ‘‘Vamos mostrar o que temos pela primeira vez’’, diz a editora da Record Luciana Villas-Boas, entusiasmada com a pasta que reúne ‘‘informations’’ sobre 16 autores. A vontade de vender da editora será acompanhada de ‘‘muita cautela’’ nas aquisições de novos títulos. ‘‘Só compraremos livros excepcionais’’, diz Villas-Boas, que enxerga o mesmo comedimento em todo o mercado editorial brasileiro.
De fato, o ‘‘freio de mão’’ é quase consensual no discurso de editores.
Quase. Paulo Rocco, da editora que leva seu sobrenome, prefere não usar a palavra recessão quando explica suas estratégias para a feira. ‘‘Não acho que existem épocas boas ou ruins. Existem, sim, livros bons e ruins.’’ Roberto Feith, da Objetiva, editora de Paulo Coelho, tem atitude mista. Prevê uma participação brasileira ‘‘menos esquentada’’, mas vai para a fogueira de Frankfurt com ‘‘mais de 50 reuniões marcadas’’ e com uma ‘‘delegação’’ de quatro pessoas, sua maior até hoje. ‘‘Frankfurt são várias feiras’’, diz.
Felipe Lindoso, diretor de relações institucionais da Câmara Brasileira do Livro (CBL), também enxerga vários rostos no pescoço da feira do livro alemã.
‘‘Frankfurt é mais do que uma fogueira das vaidades. Também é um espaço de garimpo para áreas não tão reluzentes, como livros de medicina ou de auto-ajuda’’, explica. Para Lindoso, ‘‘existe na feira uma dispersão de ofertas que você nunca encontraria via fax, e-mail ou ‘publishers weekly’ (revista
norte-americana voltada para editores). É também a chance de conversar pessoalmente com autores que não são os Tom Wolfes’’. E falsos Tom Wolfes continuam sendo inventados a cada ano. É essa a opinião de Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras. ‘‘Em cada edição da feira, criam um Umberto Eco da Coréia, um Milan Kundera do Japão’’, diz, com 15 viagens a Frankfurt na bagagem. Schwarcz acha que o processo de ‘‘glamourização’’ da feira foi prejudicial. Inflacionou os preços e fez com que ‘‘as compras em feiras ficassem muito pouco profundas’’. Mas, depois de alguns Ecos, Kunderas e Wolfes falsos, e com preços originais, Schwarcz acredita que o mercado internacional esteja diminuindo os furos das peneiras.
A Feira de Frankfurt deve continuar sendo tratada como a ‘‘Fogueira das Vaidades’’. Mas talvez nunca suas chamas estiveram tão cercadas de baldes de cautela quanto nesta sua 50ª edição.

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