Editoras disputam ilustradores
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Antonio Gonçalves Filho<br> Agência Estado 
Ilustração de livro infantil deixou de ser coisa de criança. Entusiasmados com a demanda das editoras de olho nas compras governamentais de livros paradidáticos - que, a exemplo da Companhia das Letras e Cosac Naify, criaram selos especiais para o público infanto-juvenil -, ilustradores se articulam para vender o produto de seu trabalho de forma mais organizada. Quem sai ganhando com a profissionalização é o leitor.
Como um cartão de visitas, a Sociedade dos Ilustradores do Brasil (SIB) lançou um catálogo com alguns dos principais ilustradores que integram a associação. Um nome se destaca, o do premiado ilustrador Odilon Moraes, que faz a apresentação dos colegas no catálogo e acaba de lançar uma nova versão de seu ''A Princesinha Medrosa'' pela Cosac Naify, editora de outros livros ilustrados pelo arquiteto e artista. Com ilustrações inéditas, o livro, também escrito por Moraes e anteriormente publicado pela Companhia das Letras, ganha novo formato e capa em baixo-relevo - aparentemente, apenas um capricho formal do autor, mas que, no fim das contas, acaba por revelar a prevalência do projeto do criador nas novas negociações com os editores.
A capa de Odilon mostra o rosto de uma princesinha escondida atrás de uma janela, que se abre em relevo na capa branca, clara homenagem do ilustrador a um dos mais belos livros infantis, ''O Reizinho das Flores'', da ilustradora checa Kvelta Pacovská, em que as primeiras páginas têm, ao centro, um buraco por onde se entrevê a figura imóvel do monarca. Os cenários mudam, mas o rei permanece impassível com o passar das páginas. Já com a princesinha de Odilon, escondida atrás da janela com medo da solidão e do escuro, ela vê crescer o cenário e diminuir o trauma da sua incomunicabilidade à medida que a história avança. Ao se perder da comitiva, encontra seu perfeito interlocutor na figura de um pequeno súdito que conta estrelas à beira de um riacho.
Se, no livro da checa Pacovská, o texto tratava do tédio do reizinho mesmo que a paisagem ao seu redor mudasse, o de Odilon precisava reforçar a solidão da princesinha - e nada mais indicado que isolá-la no canto da capa, numa janela em relevo, usando o design para reforçar sua fobia. Esse é um dos aspectos estudados pela acadêmica Ieda de Oliveira em seu livro sobre ilustradores brasileiros, o da correspondência entre texto e imagem e a qualidade estética dessa literatura, que muitos julgam ''menor'' por ser dirigida a crianças. Ela, então, apresentou um questionário a consagrados autores brasileiros e portugueses e o resultado apontou para uma literatura que, ao contrário, apresenta um conteúdo tão sofisticado quanto o da literatura para adultos. ''Há um preconceito contra o ilustrador, como se ele não fosse também autor'', diz ela. ''E até os professores, que deveriam ensinar as crianças a ver, ignoram a parte visual por absoluta falta de formação'', conclui a estudiosa.


