Rio, 03 (AE) - O cantor e compositor Eduardo Dusek já era íntimo da obra de Carmem Miranda, antes mesmo de se tornar músico profissional, nos anos 70. Quando se formou em Regência na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, seu trabalho de conclusão de curso foi sobre a orquestração da música brasileira na era de ouro de rádio, ou seja, anos 30, 40 e 50. "E Carmem Miranda cantou boa parte dos sucessos dessa época", ele comenta.
Por isso, ao montar o show "Adeus Batucada" como parte de uma série em homenagem a Carmem, realizada no Centro Cultural Banco do Brasil, já sabia de cor e salteado o repertório e os arranjos, que ele transcreveu para seu piano de cauda, a percussão de Beto Cazes e o sax ("aclarinetado", detalha ele) de Chico Costa. O sucesso foi tanto que o espetáculo esteve em cartaz no Rio e deve ir para São Paulo em setembro.
O principal filhote de "Adeus Batucada" será o songbook que a Editora Vitale lança até o fim do ano, com as músicas de Carmem Miranda, tanto as que a consagraram no Brasil quanto as que fizeram sucesso no exterior. "Será um livro para o leigo cantar e tocar suas músicas no piano ou no violão", explica Dusek, que está gravando o repertório do show para uma provável inclusão no songbook. "São músicas fáceis, de harmonia simples, embora sempre bonitas".
Além dos hits do show, como "O Que É Que a Baiana Tem"
"Camisa Listada", "Disseram Que Eu Voltei Americanizada" e "Chica Chica Boom" (do filme americano Uma Noite no Rio), Dusek vai incluir entre as 40 ou 50 músicas do songbook outras canções que fizeram sucesso recentemente e muita gente não sabe que foram lançadas por Carmem Miranda. "É o caso da marchinha Balancê, que a Gal gravou, de Tico-Tico no Fubá e Bambu de Bamboo, que teve versão do Ney Matogrosso".
Ele acha que Carmem Miranda foi uma marca tão forte e tão reciclada na cultura brasileira que hoje é difícil identificar suas influências na música. "No axé baiano é evidente, especialmente em Daniela Mercury e grupos como É o Tchan!, que nada fazem além de trazer a eletrônica para o lundu e a cantiga de roda", diz Dusek. "Mas se formos pensar bem, tem Marisa Monte, Rita Lee, Gal Costa, Elba Ramalho, ou seja, em poucas cantoras brasileiras não se nota um toque de Carmem Miranda". Exposições - No museu que leva seu nome, no Rio, a cantora vem sendo tema de mostras desde o início do ano. Até o fim do mês, seus objetos pessoais estão em exposição. "São utensílios da casa dela, roupas que ela usava fora do palco e cartas", explica o diretor do museu, Iberê Magnani. "O objetivo é mostrar a pessoa que havia por trás do mito".
Em setembro, será a vez de lembrar a parceria de Carmem Miranda com o Bando da Lua, grupo que a acompanhou praticamente durante toda a carreira no Brasil e nos Estados Unidos. "A história dessa união que deu tão certo dá idéia do caráter e da força dela", diz Magnani. "E o grupo se desfez com a morte dela".
Segundo ele, o Bando da Lua, do qual faziam parte Aluísio de Oliveira, Stênio, Afonso Osório, Ivo Astolfi, Vadeco e Helinho (estes dois, ainda vivos) acompanhava Carmem esporadicamente. Quando o empresário americano Lee Schubert a convidou para ir para a Broadway estrelar um show, ela exigiu que eles a acompanhassem. "Recusou-se a cantar samba com um grupo de suingue", conta o diretor. Na exposição, além do violão usado por Vadeco e fotos do acervo deles, serão exibidos também os filmes americanos em que o grupo a acompanha. (B.C.S.)

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