São Paulo, 07 (AE) - A capa do livro já avisa, em letras vermelhas: texto integral. Está saindo pela Companhia das Letrinhas, com ilustrações de Michael Foreman e tradução de Hildegard Feist, a versão completa de "Peter Pan e Wendy" (222 págs., R$ 24,00), do escocês James Matthew Barrie. Nada de concessões, simplificações, trechos açucarados ou interpretações psicologizantes. A história toda, como Barrie a escreveu (primeiro em forma de peça de teatro, em 1903, e só em 1911 em versão narrativa), está de novo à disposição dos leitores do Brasil. Inteira e universal.
A nova geração vai poder saber que, afinal, quem enfrenta mesmo o Capitão Hook, ou Gancho, na Terra do Nunca, é a menina Wendy. "Uma menina vale mais do que vinte meninos", declara Peter, tentando fazer Wendy sentir-se mulher da cabeça aos pés, "embora a distância entre esses dois pontos ainda não fosse lá muito grande", como Barrie faz questão de lembrar, sem perder a chance de enxertar humor em sua fábula. E os novos leitores vão também conhecer, sem retoques reducionistas, a verdadeira personalidade de Peter Pan. O menino que não queria crescer era problemático, narcisista, autoritário, arrogante, eternamente à procura de uma mãe, embora vangloriando-se o tempo todo de não ter família.
O livro é todo perpassado por uma fina ironia e um humor inteligente. Barrie chega ao requinte estilístico de discutir um tempo verbal com os leitores. E não vacila em interromper sua narrativa quando acha que seus interlocutores precisam da figura dele, o narrador, mais de perto. Como no trecho a seguir: "Será que vão (os pais) chegar a tempo no quarto das crianças? Se chegarem, ficarão felizes da vida e todos respiraremos aliviados
mas será o fim da história. Por outro lado, se não chegarem a tempo, prometo solenemente que tudo há de terminar bem".
A babá das crianças, a cachorra Naná, é uma das personagens mais engraçadas da literatura infantil universal. É outra descoberta importante para quem só conhece a Naná simplificada da versão de Walt Disney para o cinema, feita no início dos anos 50. Sobre esse filme, aliás, há que se fazer uma certa justiça: ao mesmo tempo que se descobre a enorme distância entre o roteiro do desenho e o texto original, percebe-se que muitas das passagens do desenho são, ao contrário, absolutamente fiéis à criação de Barrie - como a cena da procura da sombra de Peter no quarto das crianças ou a própria cena do vôo para a Terra do Nunca, em que o pequeno Miguel dorme em pleno trajeto e vai sendo salvo o tempo todo por um exibicionista Peter Pan.
Vale a pena ficar atento também, no começo do livro, ao forte lirismo e à impressionante simbologia com que o autor descreve as triviais preocupações de uma mãe com seus filhos. O jogo de metáforas é riquíssimo. Para ele, resumindo a grosso modo, as mães esperam os filhos dormir e vão ao quarto toda noite arrumar a cabeça deles, assim como põem ordem nas gavetas. "De manhã, quando você acorda, as travessuras e as maldades que levou para a cama estão bem dobradas no fundo de sua cabeça, enquanto no alto, expostos com todo o capricho, estão os seus pensamentos mais bonitos, prontos para ser usados".
Não é a primeira vez que a versão integral de Peter Pan é editada no Brasil. Numa das vezes anteriores, a tradução foi da escritora Ana Maria Machado, que assim resumiu a abrangência da obra: "O texto é ambíguo e muito rico, discute até um possível aborto de Wendy, fala de ações e dividentos, mergulha nas turvas águas da sexualidade, não só com jogos de sedução e triângulo amoroso, mas até mesmo com referências a uma porção feminina do Capitão Gancho". Confira você mesmo.