São Paulo, 07 (AE) - A editora Civilização Brasileira acaba de lançar as obras completas do dramaturgo Alcione Araújo, autor de textos como "Em Nome do Pai" e "Há Vagas para Moças de Fino Trato". São 12 peças distribuídas em três volumes. Assinam os textos de apresentação o cineasta Domingos de Oliveira, o diretor Aderbal Freire-Filho e a atriz Marília Pêra", que protagonizou duas peças do autor - "Doce Deleite, na qual contracenou com Marco Nanini, e o monólogo "A Prima-Dona".
Mineiro de Januária, morador do Rio desde 1978, Araújo é também roteirista de cinema, premiado por "Nunca Fomos tão Felizes" além de ter sido indicado este ano para o Prêmio Jabuti pelo romance "Nem Todo o Oceano". A publicação de Teatro de Alcione Araújo marca os 25 anos de carreira do dramaturgo, cuja trajetória pode ser considerada vitoriosa, não só pelas premiações, entre elas o Prêmio Molire por "Muitos Anos de Vida", mas principalmente pelo fato de apenas 1 entre as 12 peças publicadas - "Vôo Cego" - ainda estar inédita.
Marília Pêra, Norma Bengell, Renata Sorrah e Osmar Prado são alguns entre os muitos atores e atrizes que já viveram personagens criados por Araújo em montagens, na sua maioria, cariocas. Este ano, a peça "Em Nome do Pai" ganhou uma versão paulistana, dirigida por Márcio Aurélio, com o ator Cláudio Cavalcanti. Entre os méritos de uma publicação como essa, pouco comum no mercado editorial, está o de estimular novas encenações em outros Estados.
Cada volume contém quatro textos selecionados por temas. O primeiro, "Simulações do Naufrágio" (R$ 32) reúne "Há Vagas para Moças de Fino Trato", "Vôo Cego", "Comunhão de Bens" e "Augusto Jantar", todas tratam de relações familiares. "A família passou por uma grande transformação nos últimos anos; foi todo um modelo familiar que naufragou, tanto na relação homem e mulher quanto na entre pais e filhos", observa Araújo. Comprometimento - No texto de apresentação, Domingos de Oliveira define "Há Vagas..." como "um duro estudo sobre a solidão feminina". "Vôo Cego" mostra um dia na vida de três personagens - o marido, a mulher e a sogra - que acaba em tragédia. "Comunhão de Bens, deliciosa comédia sobre troca de casais, mostra como as convenções sociais muitas vezes não acompanham o sentimento íntimo das pessoas", diz Domingos. E "Augusto Jantar", que mostra um casal à mesa, é um texto curto de humor negro.
"Araújo é um homem visceralmente comprometido com o país e seus destinos; estudioso como poucos, bem informado; ele fala grosso quando o assunto é o Brasil", observa Domingos. Pois são os temas sociais e políticos que agrupam as peças do segundo volume, intitulado "Visões do Abismo" (R$ 40): "Muitos Anos de Vida" tem a ditadura militar como tema central. "Sob Neblima Use Luz Baixa" fala dos desaparecidos políticos, assim como "Raiz do Grito", peça com apenas dois personagens cujas falas não ultrapassam uma ou duas palavras. "Essa peça é muito utilizada em escolas para exercícios de interpretação", comenta Araújo.
"Licença para Dois", a última peça do volume, mostra dois garotos recém-saídos de um reformatório tentando reintegrar-se socialmente. "Metamorfoses do Pássáro", o terceiro volume (R$ 28) reúne quatro peças que têm em comum a metalinguagem. "A Caravana da Ilusão" mostra um grupo de artistas andarilhos que leva o teatro numa carroça. "Em Nome do Pai" enfoca a relação entre um pai e seu filho ator, após a morte da mãe. O entendimento entre eles tem início num jogo teatral, numa peça dentro da peça, ensaiada pelo filho com a ajuda do pai.
"A Prima-Dona", brilhantemente interpretada por Marília Pêra, mostra uma cantora lírica decadente que apresenta trechos de óperas famosas em pequenas cidades do interior do Brasil. A peça enfoca com humor cáustico as dificuldades enfrentadas por quem decide viver de arte no País e o esforço da cantora para amenizar o choque cultural com o seu público que desconhece ópera. "Doce Deleite" são esquetes que têm como personagens um ator e uma atriz.
A apresentação desse último volume é da atriz Marília Pêra, dirigida por Araújo em "Doce Deleite". Segundo ela, os textos do dramaturgo tem uma marca: "Quem os lê sente logo que são de um escritor informado, sensível e apreciador das mulheres", escreve. "Além do embasamento cultural, é ousado na linguagem e tem um humor refinado; você pode divertir-se muitíssimo ao se perder nesses textos".

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