Editora Globo lança obras de Borges
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de agosto de 1998
Maurício Santana Dias Agência Folha 
Antecipando-se às comemorações do centenário de nascimento de Jorge Luís Borges (1899-1986), a editora Globo lança nesta semana o primeiro dos quatro volumes que integrarão as Obras Completas do escritor argentino. Em São Paulo, o lançamento será acompanhado por uma programação que inclui mesa-redonda com Maria Kodama, viúva de Borges que chega amanhã ao Brasil, e uma mostra de filmes - entre eles A Estratégia da Aranha, de Bertolucci, e O Homem de Aran, de Robert Flaherty.
O primeiro volume traz, em ordem cronológica, os três livros iniciais da poesia (Fervor de Buenos Aires, Lua Defronte e Caderno San Martín, até então inéditos em português), um estudo monográfico (Evaristo Carriego), duas coletâneas de ensaios (Discussão e História da Eternidade) e três livros de contos (História Universal da Infâmia, Ficções e O Aleph), abrangendo o período que vai de 1923 a 1949.
Pena que, por faltar à edição um aparato crítico mínimo que seja, o leitor fique desinformado sobre as modificações e adendos que o autor fez. Um outro problema da presente edição - que segue rigorosamente, por motivos contratuais, a da editora argentina Emecé - é a ausência de um índice remissivo de assuntos e nomes, o que facilitaria muito a leitura dos que se vão aventurar pelo mundo excessivo da ficção borgiana. Mas, a despeito dos reparos que possam ser feitos, trata-se do maior acontecimento editorial do ano, um fato que merece ser saudado com entusiasmo. É muito provável que Borges fique na memória de seus futuros leitores como o maior escritor latino-americano do século 20. Tão grande que sua obra se tornou uma verdadeira obsessão para boa parte dos autores contemporâneos. Entende-se. Borges tinha a capacidade excepcional de extrair ficções das coisas mais comuns e das mais bizarras, mesclando registros literários e imantando toda a tradição - de Homero a Dashiel Hammett - com a sua palavra.
Seu texto incorpora ainda o melhor da tradição oral, dando muitas vezes a impressão de que o autor simplesmente se pôs a falar aos que lhe estão próximos. No entanto, essa oralidade é apenas aparente; por baixo da fluência das frases há um intenso trabalho estilístico, cujo esforço é habilmente escamoteado. Ou seja, vale para Borges o mesmo que ele disse a respeito do escritor mexicano Alfonso Reyes: Só em Alfonso Reyes comprovei igual ocultação ou invisibilidade do esforço. A onipresença de Borges, que deixou sua marca em tudo o que tocou (e não foi pouca coisa), acabou dando lugar, infelizmente, aos cacoetes e trejeitos borgianos que se têm visto ultimamente por toda a parte: citações pobres, labirintos vazios, crimes sem veneno. O pior é quando isso se torna puro pastiche; daí para se transformar numa moda é um passo. Quem se deparar pela primeira vez com a obra de Jorge Luís Borges logo perceberá que ela é movida por uma mola mestra: a vontade enciclopédica de incluir um máximo de experiência em unidades mínimas. A doutrina gnóstica, a cabala, o zen-budismo, toda a literatura inglesa (de que ele era mestre), Dante, os tratados de ciência natural, o barroco espanhol, a filosofia de Berkeley e Schopenhauer, os argentinos Lugones e Banchs, a cidade de Buenos Aires, tudo converge simultaneamente para os pequenos textos criados por ele - que ao final compõem uma espécie de constelação. Mas não se preocupe; aí todos os corpos, mesmo os mais pesados, perdem a gravidade e se tornam leves. Não é preciso ser erudito ou astrônomo para gostar de Borges.
Por paradoxal que seja, é justamente a brevidade e a rapidez de suas narrativas que possibilitam esse máximo de acúmulo. E nisso a literatura de Borges está muito afinada com a sensibilidade atual, que demanda uma agilidade cada vez maior, à medida que se adensa a quantidade de referências a ser apreendida. Contudo, as constelações borgianas não são um mero agregado de disparates, mas obedecem a um estrito sistema de predileções. Na verdade, se bem observado, o universo borgiano se compõe de muito poucas coisas, sempre as mesmas. Como os grandes autores deste século, Borges tinha fixação em algumas imagens e temas que hoje já se tornaram o que se poderia chamar de repertório borgiano (tal como há o repertório kafkiano): labirintos, espelhos, bibliotecas, infernos e ruínas. Nesse sentido, o conto O Aleph pode ser lido como um emblema do conjunto da obra. A concentração de toda a experiência humana possível, de todo o imaginável e inimaginável num pequeno objeto esquecido em um porão que realiza, em miniatura, o sonho borgiano de fazer caber o infinito em um fragmento narrativo. Aí está o encantamento que resulta do contato com a sua obra. Afinal, Borges mais do que qualquer outro autor fez valer a máxima de Mallarmé, segundo a qual tudo existe para terminar em um livro.


