São Paulo, 08 (AE) - São meus livros mais fortes. Com essa frase o escritor mineiro Autran Dourado define o pacote de quatro romances escolhidos pela Rocco para o relançamento de sua obra completa. "àpera dos Mortos", "A Barca dos Homens", "Os Sinos da Agonia" e "O Risco do Bordado" são os títulos, lançados numa bonita caixa pela editora. Além disso, o escritor prepara também o lançamento de "Gaiola Aberta", suas memórias do tempo em que trabalhou com Juscelino Kubitschek.
De certa forma, Autran já havia abordado esses anos de convivência com o poder em "A Serviço Del Rey" - só que de forma ficcional. Aliás, o lançamento desse livro causou muitos problemas ao escritor. Segundo ele, as pessoas, e entre elas os críticos, tinham dificuldade em entender que Saturniano de Brito
político mineiro que chega a presidência, não era Juscelino. E muito menos que o escritor João Nogueira da Fonseca, que serve em seu governo, tampouco era ele mesmo, Autran Dourado, ou um alter ego pouco disfarçado. "Era tudo ficção", garante, embora saiba que tanta inventividade tinha amparo garantido na realidade dos fatos. Fatos - Mas agora, com "Gaiola Aberta", tudo é verdade histórica mesmo, afirma. O relato é memorialístico e deverá iluminar alguns anos da história política recente do País. "Será um exame da convivência de um intelectual com o poder, ou de um intelectual servindo ao poder", diz. Um longo tempo, em seu caso particular. Autran lembra-se de que acompanhou por nove anos a trajetória de JK, metade dos quais como oficial de gabinete no governo de Minas, outra metade como secretário de imprensa da presidência.
Segundo Autran, o segredo do sucesso de Juscelino na política estava nos nomes que ele escolhia para assessorá-lo. "Por exemplo, metade do êxito do seu governo deve ser creditado à presença nele de Augusto Frederico Schmidt, que era um homem de idéias". Essa "mania de escritor" do ex-presidente teria engrandecido sua passagem pela política - e pela História. Em "Gaiola Aberta", Autran pretende revelar os bastidores dessa que é considerada por muita gente boa a época mais brilhante da política nacional brasileira.
O título expressa um desabafo do autor. Porque se a coabitação do escritor com o poder pode ser muito criativa, também costuma ser desgastante. Quando o governo Juscelino mudou-se para a recém-inaugurada Brasília, Autran não pôde acompanhá-lo, por problemas de saúde, e precisou se desligar do governo. Naquele dia, ele apanhou um táxi, mandou seguir para Ipanema e sentou-se na orla. "Fiquei olhando o mar, aquele dia belíssimo, respirei fundo e me senti como um pássaro que é devolvido à liberdade", diz. A tal gaiola dourada, metáfora do poder, com seus encantos e encargos, desaparecia de sua vida. Ficção - Autran diz que os quatro romances relançados estão entre os seus melhores. "Foram também os mais bem recebidos pela crítica e foram adotados em boa parte dos concursos vestibulares", diz. A reedição também é bem-vinda porque estavam esgotados nas livrarias, informa o autor. Não há, entre os quatro volumes, nenhum projeto estético que os unifique, "a não ser o fato de que boa parte das histórias se passam no sul de Minas, na qual criei a cidade fictícia de Duas Pontes", diz.
É o caso de "Risco do Bordado", que Autran situa como possível eixo central de sua obra. Trata-se de uma viagem do escritor João da Fonseca Ribeiro às raízes de sua infância. Ao conversar com antigos moradores de Duas Pontes, vai reconstruindo um mosaico de imagens, que misturam a realidade como o imaginário. O título refere-se ao desenho do bordado, que aparece aos poucos, à medida em que o trabalho de artesanato avança. É, também esse, o movimento do trabalho da memória.
Esse exercício com o tempo é recorrente em muitos dos romances de Autran, como "àpera dos Mortos", mergulho no passado do personagem Honório Cota a partir de um velho sobrado da família, que vai revelando o destino dos antigos moradores, todos marcados pela tragédia. "A Barca dos Homens" é definida pelo autor como "um romance de caça e pesca", mas engana-se quem espera encontrar nele um livro de aventuras. A não ser que se considere aventura o movimento interior de um ser atormentado
Fortunato, que também povoa de sonhos e pesadelos o imaginário dos habitantes de uma ilha no litoral brasileiro.
Neste romance, saudado logo como obra-prima por parte da crítica, Autran abandona seu território geográfico preferencial, no sul de Minas, e move-se para o litoral, desenvolvendo um trabalho de linguagem lírica e alusiva. Finalmente, "Os Sinos da Agonia", lançado pela primeira vez em 1974. Talvez porque tenha aparecido na época mais aguda da ditadura militar, foi interpretado como romance histórico, por um lado, e metáfora da situação política, por outro. Na verdade, Autran parece querer mesmo é recriar o universo barroco mineiro, ambientando-o no contexto da tragédia grega.
Na história, uma mulher jovem casa-se com um homem mais velho e rico. Provoca um desfecho fatal ao apaixonar-se pelo enteado. A matriz da trama é tirada da peça original de Eurípedes, "Fedra", reescrita por Racine. Os preços dos romances relançados pela Rocco são os seguintes: "Os Sinos da Agonia", 336 páginas, R$ 31,50; "A Barca dos Homens", 292 páginas, R$ 27,50; "O Risco do Bordado", 224 páginas, R$ 21,00
e "àpera dos Mortos", 252 páginas, R$ 23,50.

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