São Paulo, 06 (AE) - Começa amanhã (06), no Teatro Alfa Real, o Heineken Concerts 99. A partir de quinta-feira, haverá shows simultâneos no Alfa Real e na casa de espetáculos Tom Brasil. É a edição mais radical do festival. Trata de música negra das Américas, quase sem ceder espaço para o pop. O "quase" corre por conta da última noite da Tom Brasil, quando vão estar no palco atrações mais ao gosto da indústria cultural. De resto, é música cerebral. O que não quer dizer música sorumbática. Ao contrário.
A grande atração deste Heineken Concerts é o espetáculo "Buena Vista Social Club". Seus atores são a velha-guarda da música cubana, pré-exportação para Hollywood do impreciso rótulo salsa, que serve para designar quase toda a música caribenha. A festa do son - Os músicos do espetáculo são soneros. Fazem son. Son é a música da ilha cubana, sem artificialismos - como o nosso samba de partido alto. É música de festa e congraçamento. Tocada nas praças, para que todos cantem e dancem, dancem muito. Os músicos do espetáculo "Buena Vista Social Club" estão reunidos num grupo que recebeu nome em inglês: Afro Cuban All Stars. Rubén Gonzales, Omara Portuondo, Ibrahim Ferrer, Julio Alberto Fernández, Carlos González, Salvador Repilado Labrada, Manuel Putillita Licea, Benito Suárez Magana, Eliades Ochoa, Jilienne Oviedo Sánchez, Compay Segundo Torres, Alberto Virgilio Valdés e os demais do grupo são os Nelsons Cavaquinhos, os Cartolas, os Paulos da Portela, os Alcides Malandro Histórico de lá. São a velha-guarda, fina flor, o esteio da grande música cubana.
A média de idade está próxima dos 80 anos. Mas há músicos mais jovens. O produtor Juan de Marcos González é mais jovem. Percebeu que existia a grande música - e que não estava gravada. Como tem trânsito fora de Cuba, conseguiu selo (WEA) para registrar o espetáculo "Buena Vista Social Club". O guitarrsita Ry Cooder assumiu a co-produção. O resultado maravilhou o mundo (o muito respeitado norte-americano Cooder foi importante nesse processo de reconhecimento). Em pouco tempo
o disco "Buena Vista" bateu recordes de vendagem e ganhou inúmeros prêmios.
Isso ocorreu há dois anos, mas, até o Heineken, nenhum empresário brasileiro havia pensado em trazer para cá o "Buena Vista". Falha sanada. O espetáculo será apresentado hoje, no Canecão, no Rio de Janeiro (foi o único show do Heineken Concerts a ser apresentado fora de São Paulo). Na sexta-feira, será mostrado na Tom Brasil. Com uma atração extra: em separado, o veteraníssimo Compay Segundo, nascido em 1907 (é uma espécie de Moreira da Silva da música cubana, pela longevidade tanto quanto pela qualidade), fará show em separado, acompanhando por seus Muchachos.
É um cubano que faz o primeiro show do festival. O pianista Gonzalo Rubalcaba, entretanto, faz jazz. Aliás, é um dos grandes nomes do jazz contemporâneo. Abre a noite de amanhã, no Teatro Alfa Real. Depois dele, apresenta-se o Quartet West, do contrabaixista Charlie Haden (prêmio de melhor gurpo de jazz do ano passado, dado pela revista norte-americana "Downbeat", que deu ainda, a Haden, o prêmio de melhor contrabaixista de jazz) que recebe o reforço do saxofonista Ernie Watts., num espetáculo de rigor técnico e formal - de emoções sutis.
Antônio Pinto e Jaques Morelenbaum apresentarão, quinta-feira, no Alfa Real, pela primeira vez ao vivo, a trilha sonora - da qual são autores - do filme "Central do Brasil". Na sequência, no mesmo palco, o quinteto do contrabaixista brasileiro Zeca Assumpção abre espaço para a participação especialíssima do guitarrista norte-americano John Scofield.
Ainda quinta-feira, mas na Tom Brasil, um espetáculo inédito reúne Egberto Gismonti, Gilberto Gil e Jane Duboc. Eles já se encontraram em palco antes, mas nunca para um show assim - este foi pensado especialmente para o festival.
Na sexta-feira, no Alfa Real, o assunto é a música de Antônio Carlos Jobim. Shirley Horn, que vem com seu trio, avisou: "Vou cantar só Jobim", que considera um dos maiores gênios musicais do século. Vê influências do maestro brasileiro em toda a construção da moderna música ocidental, pós-anos 60, e encarrega-se de apresentar provas disso em todas as suas apresentações.
A diva do jazz, a última diva do jazz, cederá lugar, no palco do Alfa Real, para o também veterano Zimbo Trio, que vai receber a visita do saxofonista alto Lee Konitz. Também tocarão Jobim. A sexta-feira da Tom Brasil, como já foi dito, é dos cubanos.
No sábado, o Alfa Real recebe o quarteto do multiinstrumentista argentino Pedro Aznar, na abertura da noite, e, depois, um quarteto muito especial (e especialmente formado), integrado por Toninho Horta, Gary Peacock, Jack DeJohnette e Nivaldo Ornelas. Aznar, que tem premiados trabalhos-solo, faz parte do grupo de Pat Metheny. Pet Metheny é um êmulo norte-americano de Toninho Horta. Peacock e DeJohnette, que já tocaram com Egberto Gismonti, eram titulares do famoso trio de Keith Jarret - vai ser um espetáculo instigante, que permitirá perceber intercessão de sotaques, influências e reelaboração de influências.
Enquanto Aznar, Toninho Horta e turma estiverem no Alfa Real, a Tom Brasil estará apresentando sua festa meio pop, meio de raiz da música brasileira, com a pós-modernidade de Tom Zé, a música agreste da Banda de Pífanos de Caruaru, o pós-mangue beat de Otto, o pandeiro de samba (e de todos os ritmos) de Marcos Suzano, o soul de Cláudio Zolli, os violões brasileiríssimos do Duofel, os ruídos urbanos de M4J. Do resultado da mistura saberá quem lá for ver.

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