Edgard de Souza expõe em SP e Nova York
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segunda-feira, 10 de abril de 2000
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 11 (AE) - Nos últimos meses, Edgard de Souza trabalhou intensamente para conseguir preparar duas individuais. Amanhã (12) à noite, o artista inaugura uma exposição na Galeria Luisa Strina em São Paulo e, dia 18, começa a montar uma mostra na Galeria Jack Shainman, em Nova York. Sua produção deve ainda ser objeto de uma monografia pela editora Cosac & Naify, com texto do crítico Carlos Basualdo. A expectativa do artista é que o livro, que traça uma espécie de narrativa visual de sua obra desde suas primeiras esculturas, em 1989, seja lançado ainda com sua exposição paulistana em cartaz.
Ao contrário do que costuma ocorrer com alguns artistas, que se servem de olhares retrospectivos como esse para consolidar um rumo de trabalho, Edgard parece interessado em abrir novos caminhos, adicionando novas pesquisas de tema e de linguagem a cada exposição. Em alguns momentos, essas pesquisas parecem entrecruzar-se, mas há sempre uma espécie de percurso solitário em cada uma delas. "Tem gente que vai pensar que é uma coletiva", brinca Edgard. Nas duas mostras predominam três linhas básicas de pesquisa: as esculturas (forma de expressão que lhe é mais comumente associada), pintura e fotografia.
Também há uma convivência pacífica entre a figura e a abstração. Mas o que há em comum a todos os trabalhos é uma certa organicidade, fazendo com que todos eles remetam à idéia de corpo - mesmo nos casos em que Edgard brinca com formas geométricas puras como os círculos (pintura) ou esferas (escultura). Quando há um corpo humano, esse corpo é sempre o do artista. Fotografia - Tudo começou com as fotos que tirou de si próprio, sem muito cuidado técnico, para servir de modelo a suas esculturas. "No meio do processo comecei a usar a própria fotografia", explica o artista. Na exposição, há nove trabalhos dessa série (oito inéditos e um já mostrado na 24.ª Bienal). O artista aparece sempre nu, em imagens mais ou menos definidas - o grau de precisão da imagem decorre simplesmente do fato de ele estar em movimento ou parado - e muitas vezes confrontado com seu duplo ou triplo.
Apesar do predomínio de trabalhos bidimensionais, o artista se considera acima de tudo um escultor. Talvez seja essa dedicação à construção da forma que explique o fato de Edgard gastar vários meses para construir esculturas sobrepondo fatias de madeira compensada - que devem ser cuidadosamente lixadas à mão - para depois recobri-las com tinta para automóvel, de maneira a esconder todo o seu esforço construtivo e deixar brilhar apenas as sedutoras e delicadas formas, como as das gotas, que vem construindo desde 1992. Apenas para fazer as dez peças que serão expostas em São Paulo e Nova York foi necessário um semestre.
Há na obra de Edgard um rico material psicanalítico. Na mais freudiana delas o artista chega a fotografar-se em posição fetal dentro de uma escultura que tem uma forma bastante protetora, como uma concha. Tanto que uma vez o artista chegou a convidar um psicanalista (ao invés de um crítico) para escrever o catálogo de uma exposição. Ele mesmo não sabe explicar o por quê dessa abordagem narcísea. "Sempre fui muito fechado, é engraçado me expor desse jeito", conta.
Além das implicações psicológicas, os trabalhos dessa exposição também parecem remeter a outra área: a da biologia. É difícil ver as imagens de Edgard brincando com ele mesmo sem pensar na biologia genética e no complexo universo da clonagem. Mas é na própria história da arte que Edgard de Souza encontra alimento para suas criações. Algumas de suas peças são explicitamente inspiradas na escultura grega. É o caso, por exemplo, da obra em que duas figuras se fundem, criando uma espécie de arco. Em uma foto, o artista chega a recriar uma luta helenista.
Já as pinturas em glitter (uma espécie de pigmento brilhante como a purpurina) - que Edgard mostra pela primeira vez agora - são experimentos no campo do realismo abstrato. Ele se diz encantado com os ecos de produções anteriores, que se fazem sentir nas suas obras e nas de outros artistas contemporâneos. Tanto que essa nova série de pinturas ganhou o título "DAprs". Mas reconhece que sente um certo incômodo ao concluir que ninguém mais consegue fazer algo completamente novo
o que não lhe impede de continuar sempre testando - e expandindo - os limites da arte. Serviço - Edgard de Souza. De segunda a sexta, das 10 às 20 horas; sábado, das 10 às 14 horas. Galeria Luisa Strina. Rua Padre João Manoel, 974, tel. 280-2471. Até 13/5.


