São Paulo, 01 (AE) - Atenção: a única coisa que diferencia os dois lançamentos é uma faixinha verde no alto, à esquerda do CD, com a inscrição "em português". Se for comprar
escolha esse com a faixa. Raramente isso ocorre, mas as canções de "Tarzan", de Phil Collins e com partituras de Mark Mancina, são muito melhores quando cantadas por Ed Motta, na versão em português (ambas da Abril Music).
Por que isso acontece? Logo na primeira faixa, "Two Worlds, Two Worlds" já se percebe a diferença. Collins canta burocraticamente, sem entusiasmo, um velho pop star em vias de aposentar-se ganhando uns trocos com mais um serviço de encomenda. Já Motta - um grande músico em estúdio, mas deficiente em shows ao vivo - injeta um veneno soul na cipoeira da trilha e lhe dá vida, energia. Não é uma grande vantagem, já que a trilha de Collins e Mancina para "Tarzan" é praticamente decalcada da trilha que Elton John fez para "O Rei Leão", que também já não era exatamente original.
As brincadeirinhas percussivas são óbvias, falta-lhes algo da pimenta de um Olodum ou uma Timbalada ou um legítimo approach afro. A bem da verdade, é preciso fazer uma ressalva: na faixa "Trashin the Camp" (Estragando o Acampamento), que aqui tem a cantora Gabriela Teisseir e o elenco improvisado na interpretação vocal, é melhor ir à versão original. Ali, é a atriz Rosie ODonnel quem encabeça o coro e faz os scats vocais. Gabriela bem que se esforça, mas não alcança o tom que Rosie atinge com um pé nas costas.
"Trashin the Camp" tem ainda outra interpretação no CD, com Phil Collins e N Sync, mas meio industrial, sem graça. Ed Motta estraçalha em "No Meu Coração Você Vai sempre Estar", de Collins e Rob Cavallo, esticando as notas, brincando com os versos e dispensando os truques vocais que Collins faz na versão original. Feita a comparação (que é inevitável, já que as trilhas estão sendo lançadas ao mesmo tempo), é bom observar que os temas para os filmes Disney chegaram à exaustão.
Ninguém aguenta mais aquele punhado de composições piegas, com arranjos ainda mais óbvios, falando de coisas como "círculo da vida", "dois mundos, dois corações", "no meu coração você sempre vai estar" e outras bobagens. É uma conspiração contra a inteligência infantil. "Tarzan" merecia algo mais selvagem, menos previsível.

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