Ed Mort ataca no Festival
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de maio de 1997
Zeca Corrêa Leite Sucursal de Curitiba 
Hoje é o último dia do bem-sucedido Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba. Apesar das dificuldades da organização em conseguir patrocinadores, os dramas de bastidores não influíram no andamento do encontro, que transcorreu da melhor forma. O alto astral deverá permear o FCVC até o fim - no último dia apresenta mais uma estréia nacional: Ed Mort, comédia estrelada por Paulo Betti. A sessão está marcada para as 16 horas, no Cine Ritz.
Dirigido por Alain Fresnot, o filme conta as peripécias de um detetive desastrado - Ed Mort -, que é contratado por uma mulher para encontrar seu marido, o Silva, misteriosamente desaparecido. Mal sabe o pobre o que o espera pela frente. Uma sucessão de acontecimentos ligados a interesses escusos vão enredá-lo cada vez mais num labirinto que parece não ter fim.
Homens poderosos e negociatas tão sujas quanto o poder que detêm embaraçam ainda mais o novelo, sem contar as confusões do coração. Ed se apaixona por Cibele, filha de Silva, que apresenta um programa de televisão voltado ao público infantil, cujo patrocinador são as Indústrias Delbono.
Silva, alto executivo das Indústrias Delbono, é mestre em disfarces. Ele é quem localiza Ed e passa a infernizar sua vida com as mais absurdas transformações. Aparece como se fosse Chico Buarque, Gilberto Gil, Cauby Peixoto, Luíza Thomé, Marília Gabriela, José Mojica Marins.
Pelo telefoneQuando Alain Fresnot decidiu rodar Ed Mort, depois de ler Ed Mort Procurando o Silva, de Luís Fernando Veríssimo e Miguel Paiva, o cinema brasileiro estava no limbo por obra e graça do governo Collor. Corria o ano de 1991. De posse dos direitos para filmá-lo, esperou por tempos melhores. Foram cinco anos de espera.
A produção tinha de se adequar ao baixo custo de caixa - orçamento de R$ 1,5 milhão - e para sua sorte o diretor encontrou um elenco incomum e ideal para estas condições. Aos poucos as coisas foram se encaixando meio milagrosamente, contou. A Cláudia Abreu, por exemplo, aceitou fazer o filme por telefone, sem sequer nos conhecermos pessoalmente.
Vários atores, inclusive Cláudia, abriram mão do cachê, tornando-se sócios do projeto. São os casos de Paulo Betti, Otávio Augusto, José Rubens Chachá. Também na qualidade de produtor associado entraram o escritor Luis Fernando Veríssimo e o compositor Chico Buarque de Hollanda. Uma autêntica corrente pra frente.
Espinha dorsalO roteiro de Ed Mort é assinado por Alain Fresnot e José Rubens Chachá, que também atua como dublador de Zé do Caixão, Gilberto Gil, Luiza Thomé, Cauby Peixoto e Chico Buarque. Estas personalidades têm aparições fugazes no filme, como se fossem as transformações de Silva, um mestre na arte.
Aos roteiristas coube solucionar um problema na adaptação - dar à narrativa fragmentada de histórias em quadrinhos a linguagem do cinema. A primeira providência foi gerar uma espinha dorsal que pudesse manter o interesse do espectador por 90, 100 minutos, disse Fresnot. Para Chachá sua única preocupação quando escrevia as cenas era a da diversão.
Tudo pronto, vieram as filmagens, rodadas em São Paulo por questões financeiras, já que no livro a ação se passa no Rio de Janeiro. Pelos depoimentos dos artistas o entrosamento foi perfeito. Paulo Betti contou que teve um único receio ao andar pelo centro paulistano: Me deu medo de retornar ao meu passado de bancário.
Irene Ravache, a mulher do Nogueira (Ary Fontoura) comentou que o elenco é ótimo e o nosso Paulo Ed Betti está o máximo. Na tela é a imagem acabada de uma pessoa decadente, desleixada. Está sempre com um copo de uísque na mão e a alça do sutiã aparecendo.
Cauby Peixoto, aos 40 anos de carreira e 102 discos gravados, pela primeira vez surge em cena como ator. Nas velhas fitas da Atlântida e Vera Cruz participava como cantor, sem representar um papel como faz agora. Fiquei impressionado com a simplicidade do Paulo Betti, disse sobre o astro principal do filme. Quanto à sua própria atuação é sincero e imodesto: Tenho certeza que estarei lindo no filme.
q Ed Mort - de Alain Fresnot, em estréia nacional. Com Paulo Betti, Cláudia Abreu, Otávio Augusto, Ary Fontoura, Irene Ravache. Hoje, no Cine Ritz, às 16 horas, encerrando o Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba. Ingressos: R$ 3,00.


