Ecos da ditadura
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de abril de 2009
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
''Você não deve ter ouvido falar de mim, mas minha obra teve uma importância muito grande na época da ditadura e foi publicada em países da América Latina.'' Ao se apresentar, Manoel de Andrade, autor de ''Poemas para a Liberdade'', que reúne textos combativos ao regime ditatorial e a governos opressores em geral, resume sua história em poucas palavras. O livro, que teve relativo sucesso nos anos 70, ganha edição nacional após ter se esgotado em países da América Latina.
Manoel, nascido em Rio Negrinho, em Santa Catarina, está radicado no Paraná já há muitos anos. Uma época em especial marcou sua vida e o início de uma aventura pela América do Sul, o período sessentista no auge da Ditadura Militar no Brasil. ''Eu era estudante de Direito da Federal (Universidade Federal do Paraná) e nessa época me politizei. Já escrevia alguns poemas e, após o Golpe de 64, minha poesia, que era mais formalista e concreta, mudou. Tinha muita gente sendo presa e exilada, tínhamos que fazer alguma coisa, levantar uma bandeira'', lembra.
Assim, nasceram textos como ''Saudação a Che Guevara'', que, de acordo com Manoel, tornaram-se populares e logo chamaram a atenção da censura, representada pelo famoso Ato Institucional número 5 ou AI-5. ''O AI-5 começou a me procurar, porque meus textos acabaram sendo panfletados em sindicatos, centros acadêmicos e outras organizações. E o clima era de desespero, de medo, porque as pessoas simplesmente sumiam, às vezes só descobriam quando elas estavam no cemitério. Por isso, decidi ir embora, pelo Paraguai'', conta.
Disposto a entrar na guerrilha de Che Guevara, Manoel passou por Paraguai, Chile, Argentina e Bolívia, onde publicou a primeira edição de ''Poemas para a Liberdade'', que logo se espalhou pela Colômbia, Peru, Nicarágua, El Salvador e até pelos Estados Unidos. Mas não no Brasil, pelo menos não nessa época. O autor acabou se desligando dos textos poéticos combativos ao retornar para Curitiba, depois de quatro anos de viagem.
Depois de anos no ''anonimato social'', nas palavras do próprio Manoel, o entusiasmo sobre seu trabalho poético retornou após sua participação na coletânea ''Próximas Palavras'', em 2002. A possibilidade de publicar pela primeira vez no Brasil ''Poemas para a Liberdade'', em edição bilíngue português e espanhol, veio depois do sucesso de ''Cantares'', pela editora Escrituras, em 2007.
''Ainda acredito numa sociedade socialista mas não mais pela luta armada, que não é mais uma solução, não deu certo'', diz. ''Quero resgatar a memória de 40 anos atrás, quando nasceu um sonho que contagiou toda uma geração. Esse livro é uma memória resgatada de muitas sementes lançadas por nossos ideais. Algumas germinaram e sobreviveram, outras murcharam e muitas foram sacrificadas'', completa o autor.
SERVIÇO
- Poemas para a Liberdade - Manoel de Andrade
Quando - Hoje, 20h
Onde - Espaço Cultural Alberto Massuda (R. Trajano Reis, 453), em Curitiba
Quanto - Entrada franca, o livro, de 200 páginas, custa R$ 24
Mais informações - (41) 3076-7202


