Eça de Queirós escreveu sobre Afeganistão
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sábado, 27 de outubro de 2001
Sylvia Colombo<br> Agência Folha 
Em 1880, o escritor português Eça de Queirós (1845-1900), então trabalhando como cônsul de seu país em Bristol (Inglaterra), escreveu um texto para o jornal carioca ''Gazeta de Notícias'' sobre uma campanha militar inglesa realizada naquele ano no Afeganistão
Na época, a preocupação não era o terrorismo, que hoje move os ataques da coalizão encabeçada por norte-americanos e britânicos. O que estava em questão era a expansão colonialista dos ingleses no século 19.
Entretanto, algumas discussões levantadas por Eça no ensaio sobre o enfrentamento de uma potência ocidental contra aquele país asiático - como a desproporção bélica, a força da propaganda e o papel da mídia - ainda permanecem atuais.
''Eça tinha um olhar especialmente agudo para o que estava em jogo'', disse à reportagem Paulo Franchetti, professor de teoria literária da Unicamp. ''Era profundamente crítico com relação ao colonialismo inglês. Ele denuncia a desproporção dos armamentos de que dispunham a Europa e o mundo árabe e contraria a opinião pública e a imprensa, que se transformara naquele tempo em mera propaganda dos interesses ingleses'', conta.
O texto ''Afeganistão e Irlanda'' integra o livro ''Cartas de Inglaterra'', organizado em 1905, cinco anos depois de sua morte. No Brasil, pode ser lido nas ''Obras Completas'' do autor, da Nova Aguilar.
Nele, Eça faz uma comparação entre duas campanhas realizadas pelos ingleses na região, que visavam fazer frente aos russos. Em sua descrição, o Afeganistão surge como um adversário poderoso e misterioso. Já o inglês é tratado com ironia. ''Sem chá, bate-se frouxamente'', diz.
É interessante notar como Eça percebe as artimanhas dos ocidentais para legitimar-se no poder (''sacodem do serralho um velho emir apavorado; colocam lá outro de raça mais submissa''), assim como satiriza seu extravagante aparato bélico. ''De Inglaterra partem esses negros e monstruosos transportes de guerra, arcas de Noé a vapor'', diz.
Além de autor de romances consagrados, Eça atuou como diplomata em vários países. As viagens não só lhe forneceram ingredientes para a ficção (''A Relíquia'', ''O Mandarim''), como fizeram-no refletir sobre questões sociais e políticas de seu tempo.


