Eagle Eye Cherry toca no próximo Free Jazz, em outubro
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 09 de agosto de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 10 (AE) - A música de Eagle-Eye Cherry pode não ser tão sofisticada como a de seu pai, o trompetista de jazz Don Cherry (1936-1995), mas sua popularidade é bem maior. Seu primeiro disco, "Desireless" (Polydor, importado), recentemente lançado, já vendeu 150 mil cópias. Eagle-Eye ainda não chegou perto de sua irmã, a cantora Neneh Cherry, mas sua performance no próximo Free Jazz Festival, em outubro, poderá servir de impulso a uma carreira que começou cedo.
Aos 9 anos, Eagle-Eye já tocava percussão com um grande amigo do pai, o percussionista brasileiro Naná Vasconcelos, que formava com Don Cherry e o baixista Collin Walcott o grupo Codona. Sueco, nascido na cidade de Skne há 29 anos, Eagle-Eye Cherry não seguiu, contudo, os passos do pai, um trompetista que acompanhou grandes músicos da vanguarda jazzística, de Ornette Coleman ao contrabaixista Charlie Haden.
Experimental - O cantor, percussionista e violonista preferiu o caminho da música pop, mas herdou do pai o desejo da experimentação e o respeito pela música étnica. Foi na Suécia que Don Cherry gravou um de seus manifestos musicais, The Creator Has a Master Plan (1971). Foi para Estocolmo que Eagle-Eye resolveu voltar após passar toda a adolescência em Nova York. Precisava de paz para trabalhar e não queria ser triturado pela fúria mercantilista das gravadoras.
"O sucesso do meu disco de estréia é preocupante, mas sem a popularidade do single "Save Tonight" não estaria sendo convidado para shows ou festivais como o Free Jazz", observa. De fato, apesar da esmerada produção, o inegável apelo comercial da música de abertura do CD, "Save Tonight", não deixa dúvidas sobre as intenções de Cherry. "Talvez seja o tipo de canção classificada como superficial, mas ela diz muito a respeito de uma geração sem perspectivas, que vive para o dia de hoje", justifica o cantor, que concedeu uma entrevista à Agência Estado por telefone, de Estocolmo.
Lutar contra o hedonismo da sociedade laica e materialista era justamente o que seu pai fazia. "Ele dava graças a Deus pelo simples fato de estar vivo", lembra Eagle-Eye, que ganhou esse apelido logo ao nascer, por ter encarado o pai com seus "olhos de águia". Já Eagle-Eye não é tão purista ou espiritualizado. "Essa canção, "Save Tonight", fala de uma geração que vive para o prazer e certamente desconhece o significado de um vínculo mais permanente", diz o cantor, reconhecendo-se nesse perfil nada indulgente.
Eagle-Eye, namorado de uma sueca, acredita na mudança desse tipo de comportamento, que frequentemente troca o verbo "amar" por "ficar". "Tudo acontece num momento certo", afirma, confiante. "Se eu, por exemplo, tivesse feito sucesso aos 19 anos, estaria irremediavelmente perdido, pois não estava preparado", diz.
Primeira visita - "Cresci ouvindo meu pai, que era muito aberto e ajudou-me a descobrir a música brasileira, africana e indiana", conta. Em sua homenagem, Eagle-Eye gravou a canção-título do CD, "Desireless", composição de Don Cherry. Convidou o trompetista sueco Gran Kafjes para substituir o pai.
Esta será a primeira visita de Eagle-Eye ao Brasil, apesar de seu profundo conhecimento da música e dos músicos brasileiros. "Vivia na casa do Naná e lá conheci todo mundo", conta. Neneh, sua irmã, já participou do Free Jazz e revelou grande afinidade com a produção musical daqui. "Espero trabalhar com ela um dia, porque Neneh é a pessoa mais legal que eu conheço no planeta, além de ser minha cantora favorita", diz o orgulhoso irmão.


