É um bom disco pop
A crítica dividiu-se, mas os elogios foram maiores que os xingamentos. O disco tem uma concepção de aproximação com o que o mercado (leia-se consumo imposto pela mídia e lobbies das gravadoras multinacionais) está pedindo. Jargões como ‘‘drum’n’bass’’ e ‘‘música eletrônica’’ podem ser aplicados aos arranjos de quase todas as músicas. É um caminho a ser escolhido como poderia ter sido outro, mas julgando o que foi apresentado e não o que poderia ter sido, é um bom disco pop.
A abertura é uma composição inédita, ‘‘Derretendo Satélites’’, parceria entre Paula e Herbert Vianna. É esta que está tocando nas rádios e também a escolhida para o clip do projeto. Tem um tema assanhadamente erótico e uma levada com um pouco mais de peso do que o restante.
O disco segue com a dispensável ‘‘Fly Me To The Moon’’ (Bart Howard) para depois cair em ‘‘Eu Só Quero Um Xodó’’ (Dominguinhos/Anastácia). Esta música, assim como ‘‘Alguém Me Avisou’’ (Dona Ivone Lara), ‘‘1800 Colinas’’ (Gracia do Salgueiro), ‘‘E o Mundo Não se Acabou’’ (Assis Valente), ‘‘Onde Está a Honestidade’’ (Noel Rosa) e ‘‘Cantar’’ (Godofredo Guedes - pai de Beto Guedes), compõe o cenário de músicas brasileiras clássicas apresentadas por Paula que merecem uma consideração à parte.
Sempre é bom que um compositor pop, que esteja mais próximo às novas gerações, grave e mostre a um público novo as canções clássicas da MPB que, de outra forma, talvez eles nunca conhecessem. Do contrário, essas músicas poderiam desaparecer da memória brasileira ou ficar restritas a museus da imagem e do som. Também não se pode pedir que um astro pop seja fiel aos arranjos originais destas canções. Ele tem todo o direito de optar por roupagens mais novas. Se os conservadores não gostarem, nada impede que outros gostem e assim passem a conhecer mais do seu próprio país.
Além disso, é preciso coragem para uma cantora e compositora como Paula Toller, consagrada pelo público que a acompanha no trabalho com o Kid Abelha, para se dispor a enfrentar estes clássicos. Mais ainda para ter peito de apresentá-los numa roupagem totalmente diferente das originais. E coragem é uma palavra em extinção na grande indústria fonográfica internacional. Paula está de parabéns e outros astros pop poderiam imitá-la, não em busca apenas de sucesso, mas em busca de caráter e identidade.
No disco ainda tem a canção ‘‘Oito Anos’’, feita para o filho Gabriel, em que a autora brinca com a ‘‘fase do por que?’’ pela qual passam as crianças. A balada ‘‘Patience’’, da desaparecida banda americana Guns’n’Roses também está presente numa leitura particular.
Aliás, ‘‘Patience’’ vem logo depois de ‘‘Onde Está a Honestidade’’, de Noel Rosa. Rosa e Roses um do lado do outro. Aí está o barato pop do disco. E como a própria Paula Toller admite na entrevista desta página, a música ‘Cantar’’ é a chave para se unir tudo. E cantar traz o arranjo mais conservador, quase como fosse um regional acompanhando a intérprete. É a mais pura e a que mostra um pouco do que o disco poderia ter sido se a opção fosse mais clássica.
Outro ponto interessante do disco é a participação de grandes músicos, embora um tanto quanto timidamente. Antônio Adolfo faz participações em várias músicas, tocando piano acústico, Marco Pereira no violão e Luís Carlini na slide guitarra (que deixa um gostinho de ‘‘quero mais’’, em ‘‘Patience’’), além de uma orquestra de cordas.
O disco é um passeio pop que vai da música brasileira dos anos 30 ao som do rock dos 90, tudo ligado pela interpretação pessoal de Paula Toller e à sua maneira de emitir a voz que o músico e o diretor Luís Tatit - que estará em Curitiba no fim de semana - explicou assim:
‘‘O timbre belíssimo e a afinação cristalina são apenas ponto de partida para aquilo que é seu maior trunfo: a emissão de voz. A intensidade e a duração das notas cantadas por Paula são rigorosamente proporcionais ao que o contorno da melodia pede. Não há sobra de voz.’’
(L.C.O.)

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