Simone Mattos
O precursor do movimento Hip Hop em Curitiba, o paulista Davi Black, estará lançando hoje à noite o seu segundo CD, ‘‘Pra Manos e Aliados’’. Ele conta que quando chegou à cidade, no início da década, encontrou dificuldades em emplacar o Rap, ritmo que já tocava desde 1988 na periferia da zona sul de São Paulo. Hoje, há mais de 30 bandas de Rap no mercado curitibano, além de dezenas de grafiteiros e dançarinos de break, segmentos que também compõem o movimento Hip Hop.
Black comenta que as periferias estão abandonadas e que o ritmo Rap é o único atual meio de comunicação entre os jovens. ‘‘O meu CD é uma metralhadora que atira palavras, invadindo mentes’’, comenta. A partir desta constatação, ele fala sobre a responsabilidade dos compositores de Rap.
‘‘Passamos mensagens com enfoque social, que falam para evitar drogas, confusão e tráfico’’, explica. ‘‘Vamos mudar algo através de uma revolução pacífica e consciente’’, acredita. Black explica que não há nada em comum entre os seus dois CDs, já que em cinco anos aconteceram muitas transformações em Curitiba. ‘‘Hoje temos armamentos, crack e violência na periferia. A cidade não é mais tranquila como alguns querem mascarar.’’
Em dez faixas assinadas por ele, o disco traz cenas e flagrantes do cotidiano da periferia, com a qual convive. Casado, 25 anos, morador do município de Piraquara, Black se considera uma pessoa bastante religiosa, que baseia sua vida em Deus. Para ele, religião e Rap têm muito em comum, já que ambas significam ‘‘crer em algo’’.
Seu trabalho tem a preocupação maior de alertar os jovens contra as drogas e a violência. ‘‘É nos bairros mais afastados que as drogas têm maior trânsito; as periferias estão tomadas pelo crack, cocaína e álcool.’’ Para tentar reverter este quadro, o Hip Hop promove a auto-estima e a certeza da capacidade individual.
A preocupação de Davi Black e outros rappers com a crise social é tanta que, recentemente, foi organizada a primeira ‘‘posse’’ de Curitiba, a ‘‘Banca CWB’’. É uma união de rappers, breakers e grafiteiros, que têm o objetivo de ‘‘tentar fazer algo pelo social’’.
Liderada por Davi Black, a ‘‘Banca CWB’’ tem a proposta de levar palestras sobre drogas, Aids e realidade social aos colégios da periferia e região metropolitana de Curitiba, além de promover oficinas de Rap, grafite e break para crianças e adolescentes. Cinco grande colégios já agendaram as atividades com a ‘‘posse’’ de Black.
Ele lembra que quando chegou em Curitiba não havia vestígios do movimento Hip Hop na cidade. ‘‘Só as classes média e alta conheciam o Rap, pois tinham acesso a CDs importados e a MTV.’’ A necessidade de abrir um canal para as classes baixas se manifestarem fez com que Black formasse, em 1990, a banda 3D Rap, substituída no ano seguinte pelo grupo Projeto Niggaz, considerado o real precursor do movimento na cidade.
‘‘Com o Projeto Niggaz, tocamos ao lado de Gabriel o Pensador e Pato Banton, fizemos o programa ‘Gueto 90.1’, na Estação Primeira FM, e nos tornamos, finalmente, conhecidos da periferia.’’ Segundo ele, a banda foi o ‘‘estopim’’ do Hip Hop curitibano.
O primeiro CD-solo de Black, ‘‘Entre Ritmo, Política e Poesia’’, veio após o término da banda, em 1995. ‘‘Não tive muito tempo para me dedicar à divulgação dele, pois na época trabalhava no setor de cobranças de um supermercado na região metropolitana de Curitiba’’, conta.
Com o novo trabalho, a situação deverá ser diferente. ‘‘Pra Manos e Aliados’’ tem o apoio da Secretaria de Estado da Cultura e já pode ser encontrado em algumas lojas da cidade, como a Psico Streets. Hoje à noite, o disco será apresentado fora de seu reduto original, numa apresentação na Casa Andrade Muricy.
•O show de lançamento do CD ‘‘Pra Manos e Aliados’’, de Davi Black, será hoje, às 18h30, na Casa Andrade Muricy (Alameda Dr. Muricy, 915).O cantor e compositor paulistano, que está lançando seu segundo CD, sentiu dificuldade para emplacar o Rap no começo dos anos 90
José SuassunaDavi Black sobre o Hip Hop em Curitiba: ‘‘Vamos mudar algo através de uma revolução pacífica e consciente’’

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