É tempo de predadores nas telas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de setembro de 2018
Carlos Eduardo Lourenço Jorge <br> Especial para Folha 2 
Os estúdios de Hollywood persistem com a obsessão de buscar o esgotamento de franquias. A manipulação da Fox com "O Predador" é digna de um caso para estudo de reciclagens e suas variações. A saga arrancou há 31 anos com o original e estimulante "O Predador", assinado pelo então desconhecido John McTiernan; e teve sequelas com "O Predador 2" (1990) e "Predadores" (2010). Não satisfeitos com isso, os produtores também apostaram no crossover - vale traduzir: no cruzamento; e ir risivelmente mais além, já que a situação permite: no acasalamento - "Alien vs. Predador" (2004), deste diretor forçadamente cult que é Paul W.S.Anderson, e sua sequela "Alien vs. Predador 2" (2007). Agora chegou o momento do "reboot , do recomeço, com este "O Predador" que está em exibição na cidade, uma volta às origens. Refilmagem que, se não chega a ser um filme terminal enquanto cinema, tampouco permite nutrir esperanças a respeito de uma continuidade decente para a série, artística e economicamente falando.

Em suas duas primeiras partes, "O Predador" é filme de ação com soldados macho-alfa em processo de neurose de guerra, desenhados como esboços de personagens dos anos oitenta. Isto não chega a comprometer, já que o diretor Shane Black (nome de pistoleiro de western italiano...dos anos 80) injeta algum interesse e algum humor nesta turma de desequilibrados. Há o "mocinho" da história, um franco atirador de elite que descobre a presença do predador. Interrogado por uma agência do governo, que também busca ajuda científica com uma bióloga para decifrar os dados genéticos de um dos predadores (sim, há outros por aqui). Além de tudo isso, há o garoto inteligente que sofre da síndrome de Asperger, isto é, portador de uma espécie mais leve de autismo - é um personagem clichê como para justificar a presença de um menino em cena, sempre capaz de criar situações. E duas criaturas conhecidas como "predadogs". Muito mais ridículos que hilários.
LEIA TAMBÉM
- Armandinho faz show em Londrina
- Sexy, mas fora de contexto
Já próximo aos minutos finais, tudo se torna possível no filme, uma vez que o espectador já aceitou tudo aquilo visto na tela, por mais risível e inverossímil que pareça. E à saída do cinema, fazendo um rápido (mais que suficiente) inventário/ressaca do que acaba de ser visto, o que se obtém é uma retomada da invasão de três décadas atrás, reiniciando a história dos implacáveis caçadores alienígenas, que chegam dos confins do universo até uma zona rural dos Estados Unidos. Sé que agora estão ainda mais fortes, mais inteligentes e mais letais. Mas o curioso é que, quanto mais desenvolvidos parecem, menos interessantes ficam. E o filme se transforma apenas num festival gore, desaparecendo as credenciais de Shane Black como o reverenciado roteirista de "Máquina Mortífera 1 e 2" e diretor de sucessos à base da combinação testosterona/humor. Como dizia Schwarzenegger no primeiro e melhor "Predador", o bicho (e este filme de agora) é apenas "one ugly motherfucker".
Mas, como certa vez recomendou Stanley Kubrick, "para se ter uma visão mais ampla do cinema, não assistam apenas filmes bons, mas também os ruins". Ok, Mr. 2001, mas o problema é que seu conceito metafísico de cosmos não previu um ingresso neste tipo de carnificina espacial.


