"É!...", sucesso de público há 20 anos, estréia em SP
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segunda-feira, 01 de março de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 02 (AE) - Mingau quente a gente come pelas beiradas, diz o ditado. Pois foi exatamente o que a atriz Elizabeth Savalla fez ao decidir protagonizar a peça "É! ...", de Millôr Fernandes, que estréia amanhã (03) na Sala São Luiz, em São Paulo. "É!..." foi grande sucesso de público há 20 anos com Fernanda Montenegro interpretando uma mulher cujo marido cinquentão se apaixona por uma jovem, um papel criado para ela pelo autor. O espetáculo ficou quatro anos em cartaz e desde então nenhuma outra atriz ousou remontá-la.
Suprema coragem a de Elizabeth? "O cúmulo do descaramento, falta de vergonha na cara", brinca a atriz. "Na verdade, meu pânico era tão grande que estreei em Belém do Pará". Dirigido por Camilo áttila, o espetáculo iniciou carreira há dois anos e percorreu 54 cidades do Norte e Nordeste antes de chegar ao Rio, ano passado, cidade onde estreou a primeira montagem. "Tinha certeza de que Fernanda não estaria na estréia porque na época ela gravava "Zazá" e o Projac (local das gravações) era longe do teatro", comenta. Mas Fernanda não só compareceu como subiu no palco para elogiá-la. "A grandeza da atriz Fernanda só é comparável à sua grandeza como ser humano", retribui Elizabeth.
Escrita em 1977, "É!..." tem como protagonista a dona de casa Vera, casada há 22 anos com Mário (Carlos Capelety), um professor universitário. Trata-se de um casal maduro, cuja relação parece ter atingido aquela aparente estabilidade que, se por um lado não comporta mais os arroubos da paixão, por outro ganha em cumplicidade e companheirismo. O equilíbrio é rompido com a entrada em cena do casal Oto (Janser Barreto) e sua jovem mulher Ludmila (Luciana Costa). Ele, ex-aluno de Mário, hoje leciona na mesma universidade do mestre, por quem sua mulher se apaixona.
A temática já rendeu muitas comédias, mas em geral a jovem é caracterizada como uma mulher bonita, porém frágil emocional e intelectualmente. Talentoso, Millôr fugiu desse tipo de facilidade e sua Ludmila é madura e inteligente, o que torna tudo mais difícil para Vera. "Ela vai ao fundo do poço e eu interpreto seu sofrimento com verdade, para valer mesmo", conta Elizabeth. "É o meu trabalho mais visceral como atriz e por isso, na estréia, em Belém, levei um susto quando a platéia desatou a rir, ainda que o mesmo ocorresse com Fernanda".
Ela credita os risos da platéia não só ao humor e ironia característicos de Millôr como à identificação do público com o drama da personagem. "Todo mundo já passou, está passando ou teme passar por uma separação", afirma. Portanto, a platéia ri da si mesma, do comportamento patético provocado pelo sofrimento, do qual ninguém se sente imune. A atriz identifica em Vera três movimentos típicos da mulher rejeitada. "Primeiro, ela manda uma carta, depois telefona e, por fim, faz uma visita à outra", diz.
Elizabeth considera o texto de Millôr um clássico. "Trata- se de uma peça na qual todas as certezas desmoronam, os personagens mudam de idéia, já que ocorre em suas vidas algo que nenhum deles previa". Com autorização de Millôr, áttila eliminou alguns trechos datados, como referências ao regime militar ou à militância feminista de Ludmila. "Mas foram detalhes, na essência nada mudou".
Vivência não falta à atriz para o papel, afinal, tem no currículo dois longos casamentos, quatro filhos e uma separação. Há 12 anos, Elizabeth terminou um casamento de 11 anos e resolveu dar uma guinada em sua vida. Paulistana assumida, como se define, a atriz entrou em contato com o teatro por meio da atriz e professora Lourdes de Moraes no Liceu Eduardo Prado. "Ela foi a única atriz a ganhar um Molire encenando uma tragédia grega (em 1968, no papel de Cassandra em Agamenon) e trouxe para o liceu a filosofia de trabalho e disciplina da EAD, escola pela qual era formada".
Com o estímulo da mestra, ingressou na EAD, de onde saiu para integrar o elenco da novela "Gabriela", com o papel de Malvina. "Não posso falar mal do Rio, onde vivo desde então, mas o teatro é mais valorizado em São Paulo, tanto pelo público quanto por instituições e empresas", analisa. Ao separar-se, decidiu retornar às origens. Com átilla ela criou uma companhia em 1987 e, a partir daí, passou a produzir peças para excursionar pelo interior no País. "Lourdes fascinava seus alunos contando como excursionava pelo País num caminhão de peixe, apresentando-se em praças públicas", lembra Elizabeth.
E seguiu os passos da mestra. "Fomos a cidades nas quais a última companhia a passar foi a de Procópio Ferreira", conta. O apoio da Vasp substitui com sofisticação o "caminhão de peixe", mas o "espírito mambembe" é o mesmo. "É!..." é a quarta produção da companhia, cujas peças anteriores, "Lua Nua", "Ações Ordinárias" e "Mimi", fizeram temporadas médias de três anos, em todos os Estados do Brasil.
Por tudo isso, a atriz acha graça quando alguém pergunta por que ela anda "sumida" dos palcos. "Viajar pelo País é um sonho acalentado desde os tempos do liceu, faz parte de uma filosofia de época". Feliz por poder realizá-lo, a atriz vê no seu esquema de trabalho mais um motivo para remontar "É!...", afinal, a primeira montagem restringiu-se ao eixo Rio-São Paulo. "Além disso, lá se vão 20 anos e há toda uma nova geração que não conhece o espetáculo, o que por si só já justificaria uma nova montagem".


