É SHOW - Atitude AfroReggae
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quinta-feira, 09 de junho de 2005
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
De Vigário Geral ao Carnegie Hall. O percuso entre a favela carioca e a casa de espetáculo nova-iorquina foi longo, mas vale a pena ser contado, mesmo que resumidamente, não por ser um mero conto de fadas e, sim, por exemplificar uma realidade talhada pela perserverança de uma gente obstinada. Gente que testemunhou o massacre policial em 1993 quando 21 vidas foram arriadas e resolveu refazer um destino mal calculado. Não à toa Shiva, divindade hindu que rege a morte e transformação, passou a ser evocada para ilustrar as mudanças por que passou a comunidade de Vigário Geral. E com olhar firmemente ejetado no futuro, surgiu a Banda AfroReggae, o segmento mais visível ou seria audível? do Grupo Cultural Afro Reggae, que há 12 anos vem oferecendo alternativas viáveis de socialização aos jovens daquela comunidade marcada pela barbárie e descaso.
Os músicos do AfroReggae estarão hoje em Londrina para mostrar que a arte e cultura ainda são bons mecanismos de defesa e, principalmente de inserção. O show acontece a partir das 22 horas, dentro da programação artística do Cabaré do Filo. No palco, 10 músicos e quatro artistas performáticos mostram letras de forte apelo social, mas vigorosamente revestidas por uma sonoridade instigante. Ou seja, ao reggae, incorporam-se o ska, o funk carioca das décadas de 70 e 80, o rap, ritmos nordestinos, congadas, enfim uma gama de estilos que não dá brechas ao lugar-comum.
O repertório vai congregar músicas do primeiro disco como ''Capa de Revista'' e ''Me Espere'', releituras como ''Vamos Fugir'' (Gilberto Gil- Liminha) e ''Haiti'' (Caetano Veloso-Gil), além de duas canções que estarão no próximo álbum. ''A gente está com boas expectativas para a apresentação em Londrina'', revela o percussionista Altair Martins.
A banda AfroReggae surgiu em 1995 a partir de oficinas de dança e percussão ministradas em Vigário geral. O batismo oficial aconteceu no dia 9 de junho daquele ano tendo como padrinhos duas celebridades artísticas: Caetano Veloso e Regina Casé. Um bom apadrinhamento, diga-se. No início, a linha musical tendia a algo semelhante ao samba-reggae, com o uso de instrumentos de percussão hidráulica. Com o tempo como aliado, a sonoridade foi aprimorando-se com a adição de bateria, guitarras, baixos e até mesmo as pick-ups de Djs. Aperfeiçoaram-se, mas não renderam-se ao comercialesco a música manteve-se atrelada à atitude social e política.
Com a estima e segurança lustradas, os músicos do AfroReggae resolveram mostrar sua arte ao mundo e, em 1998 surgiu a primeira turnê pela Europa. ''Falaram que o povo europeu era frio, mas o que vimos foi o contrário. A receptividade foi maravilhosa porque a galera dançou bastante com o nosso som'', conta Altair Martins. Como conta, na primeira apresentação na França arrumaram até mesmo admiradores que se propuseram a acompanhá-los, assim como faz um fã-clube. ''Foi bacana porque em outros lugares que a gente ia tocar já havia cartaz anunciando nosso show'', lembra.
Outras dois turnês aconteceram, a última em 2002. Com isso, o som da banda AfroReggae expandiu-se a países como Itália, Holanda, Alemanha, Inglaterra, só para citar alguns. Neste ano giro internacional está marcado e, entre eles, a apresentação no Ano do Brasil na França. ''Isso tudo é resultado de um investimento social em uma banda que veio de uma comunidade que virou o jogo'', orgulha-se Altair. ''Antes, de onde viemos (Vigário Geral) era visto só em páginas policiais e hoje frequenta as páginas dos cadernos culturais'', complementa.
Segundo ele, além da atuação como artistas, os membros do AfroReggae estão capacitados a oferecer oficinas, inclusive em outros países que também possuem seus excluídos. Ele chega a citar exemplos de pessoas do chamado Primeiro Mundo que abandoranam a criminalidade depois de tomar contato com a realidade da banda tanto a musical como pessoal de seus integrantes. E assim vão promovendo inclusões e refazendo realidades dentro e fora da área de atuação original.
Eis o grande trunfo da moçada, que lançou o primeiro disco em 2001, ''Nova Cara'', lançado pela Universal. ''Foi um feito inédito porque pela primeira vez uma banda da favela gravou um disco numa multinacional'', diz Altair. O próximo álbum sairá pelo selo GG, dirigido por Flora Gil, esposa do cantor ministro Gilberto Gil. Duas músicas estão engatadas, entre elas a inéditas ''Quero só você'', uma balada-reggae que inaugura a parceria entre os músicos com Liminha e Nando Reis. A banda entra em estúdio na próxima semana para estruturar o disco, que tem previsão de chegar ao mercado na primeira quinzena de dezembro.
Celebridades? Não! O pessoal do AfroReggae é comunidade.
Serviço
- Show com a banda Afroreggae. Hoje, a partir das 22 horas, no Cabaré do Filo (Avenida Celso Garcia Cid, 1342, entrada pela rua São Mateus). Ingressos a R$ 20,00 (estudantes e aposentados pagam R$ 10,00). A programação do Cabaré prossegue com o show da banda Mama Quilla.


