E se o pênis cortado estivesse no vôo 402?
As coisas estão des-acontecendo. Duas cenas estão na minha cabeça como sintomas do mal do tempo: a turbina que se fechou no desastre e o pênis cortado do pobre rapaz. Este pênis cortado é igual a turbina que reverteu. São sintomas de nossa paralisia histórica. O avião que anda para trás, retido por quem? Por uma rádio-pirata (que não existe)? Ninguém foi culpado do desastre. Foi o nada que causou tudo, foi o ar, foi o real que se recusou a continuar a escalada, foi o cansaço das coisas. E o pênis decepado? Lembram-se do outro pau, do americano, abandonado num terreno baldio, com os bombeiros procurando-o? Existe abandono maior do que um pau jazendo num capinzal sem pai nem mãe?
Sei que estou delirando, mas estes dois eventos parecem comprovar minha pobre tese: os des-acontecimentos. O avião não voou. E o pênis cortado teve dois momentos: o gesto modernista da mulher de castrar o namorado, separando o homem de seu símbolo e a atitude pós-moderna: a luta pelo re-implante. Os médicos correram e, numa ciaxinha de isopor com gelo seco, fizeram o vôo do pênis (e se o pênis estivesse no vôo 402? Oh solidão de uma piroca em pleno vôo!). E re-implantaram-no. Ou seja: dois desacontecimentos: Pênis arrancado e pênis flashback. Mas, falo falo (!) e não digo o essencial. O essencial é que nada está acontecendo. Se, antes, a História produzia mudanças essenciais, fingindo que nada acontecia, a ironia hoje é que as coisas não acontecem, apesar de terem o ar de acontecerem.
O escândalo de Ricupero. Aquilo foi um típico desacontecimento. Ele caiu porque queria gerar uma notícia na TV, um des-acontecimento no Fantástico. Achava que estava fora do ar e estava no ar. Des-aconteceu. O próprio governo de FHC é um desacontecimento. Toda sua estratégia política é de fazer as coisas não acontecerem. As reformas são desacontecimentos, são dissuasões, são desatamentos de coisas acumuladas, são desconstruções. Temos de desconstruir os erros, temos de desfazer o feito para que o incontrolável possa ocorrer, para que possa fluir o imprevisto. Mesmo que estejamos errados, não há volta: temos de abrir caminho para a invasão das coisas. A queda do socialismo foi um desacontecimento. A derrubada do muro de Berlim foi uma desconstrução. O impeachment de Collor foi um desacontecimento. Os acontecimentos lutam por existir mas não conseguem os 15 minutos de glória. O grande acontecimento, aquela coisa com princípio, meio e fim, que gera seu crescimento e se completa, aquele fato que adquire sentido, este não existe mais. A saída de Bebeto do Flamengo foi um desacontecimento. As greves sindicais não acontecem mais, a greve da Petrobrás quis ser um acontecimento, mas FHC fê-la desacontecer. É necessário esvaziar o ímpeto do humano para deixar passar a vitória das coisas. A guerra do Golfo foi um. O sujeito que não embarcou no vôo da morte, falando com a mulher no celular: Querida! Está tudo bem, estou ótimo, não houve nada! Isto foi um desacontecimento privado, mas foi. Uma bala perdida no Rio é um desacontecimento. Terrível a quantidade de desacontecimento trágicos nos últimos dias, dezenas de feridos por balas que não tem origem. Quem matou a vítima? Ninguém, uma bala sem ódio. E quem enfiou uma faca só lâmina na cabeça do sujeito? Ninguém. Retiraram a faca, como no poema de João Cabral. E o rapaz lindo e milionário que deu um tiro na cabeça na frente da menina, por causa de um amante que não havia? Esvaiu-se, diante dos olhos da amada. Nada aconteceu. E ela já disse: Tudo bem, dentro de uma semana, volto a trabalhar. Está certa. Não houve nada. O pirocão do Bar Vinte no Rio é um des-acontecimento. Ali não havia nada, nem motivo para haver nada. Mas, o exibicionismo de alguém querendo acontecer criou esta patética tentativa de existir: criou um monumento a si mesmo, o que é nada. Devia ser castrado como o pinto do mineiro (venha mocinha castradora, venham grafiteiros pintar o pinto!). Os grafiteiros são agitadores do nada. O grafite nunca significa nada, buscamos o sentido, mas ele se recusa a acontecer.
A falta de quórum no congresso é um desacontecimento. A demissão de Adib Jatene foi um desacontecimento. O único acontecimento de sua gestão foi sua saída.
Também as tragédias em gestação são des-acontecimentos que vão gerar tragédias reais que parecerão acontecimentos. A pista curta do Santos Dumont é um desacontecimento, os prédios de 15 andares ao longo do Congonhas são terríveis desacontecimentos ali, esperando os fatos. Os mortos de Caruaru foram sumindo da mídia. Desaconteceram. E já são 63. A notícia tem fade out. Os bebês que voaram nos berçarios mortos, ninguém sabe como, são desacontecimentos. Os velhinhos genovevas voaram. Ninguém lembra mais. Nenhum escândalo nos salva.
A votação das Reformas no Congresso é um desacontecimento. Todo o trabalho de Deputados e senadores é para fazer que nada aconteça inteiramente como deve. Um destaque substitui um item, uma emenda substitui a outra, no final a reforma foi reformada e substituída por outra que anula tudo. O importante é que nada aconteça, aprecendo ter acontecido. O trabalho da velha esquerda e atual direita do Brasil é impedir acontecimentos. Todo o trabalho de FHC é fingir que não está fazendo nada, para poder fazer alguma coisa. Fingir que nada acontece, para que os acontecimentos possa fluir por baixo. Tem de esconder tanto para fazer acontecer que, muitas vezes, nada acontece mesmo. A idéia de utopia possível já é um sintoma disso. Estamos sob o signo da resignação, com o fim do heroísmo. Ao intelectual só resta a humanidade, seu pior inferno. A lista é imensa. A arte des-acontece, des-materializa-se. O SIVAM de tantas lutas, onde está? Onde está a pasta rosa? Onde está Calmon de Sá? Onde estão os antigos acontecimentos? E os 111 mortos? E os sem terra? E... tantas são as montanhas, as pirâmides de desacontecimentos que meu medo é que o mal perceba que é impune e não pare mais. Companheiros! Precisamos fazer alguma coisa acontecer!





