E SE O MUNDO CHEGAR AO FIM?
Coitado do Nostradamus. Numa de suas divagações sobre os séculos vindouros escreveu sobre o fim do mundo, nos idos do século 16, e desde então a humanidade é sacudida, de tempos em tempos, pelo acertar dos ponteiros na hora final. Cristo não se deu a esse luxo de exatidão, mas os homens lêem na natureza os indícios descritos pelo visionário. Hoje, mais uma vez a profecia volta a assombrar os crentes que esperam o Apocalipse para a manhã deste dia 11, data que coincide com um eclipse solar. Há 60 anos o planeta já deveria ter ido pelos ares, os angustiados de plantão arrancaram os cabelos e o compositor Assis Valente brincou com o vexame. Compôs ... E o Mundo Não se Acabou, grande sucesso na voz de Carmen Miranda, em 1938. Em seus versos ele conta dos dissabores por ter acreditado nessa conversa mole. Diz a parte final do samba: Chamei um gajo com que não me dava/ e perdoei a sua ingratidão/ e festejando o acontecimento/ gastei com ele mais de quinhentão./ Agora eu soube que o gajo anda/ dizendo coisa que não se passou./ Ih! vai ter barulho e vai ter confusão/ porque o mundo não se acabou. Se o assunto é música, Eduardo Dusek, nos anos 80, agitou o Maracanãzinho com a apocalíptica Nostradamus. Nos versos finais, ele suplicava a Carlota, a cozinheira morta diante dos pés: Levanta, me serve um café/que o mundo acabou. Com o Apocalipse rondando nossas cabeças no dia de hoje, o refrão de Dusek vale como petisco no café da manhã. (Zeca Corrêa Leite/De Curitiba)
PREVISÕES
E SE O MUNDO CHEGAR AO FIM?
ReproduçãoA Queda dos Anjos de Domenico Beccafumi (1524)Zeca Corrêa Leite
e Francelino França
De Curitiba e Londrina
Será que muita gente do mundo das artes está temerosa no dia de hoje, simplesmente porque o velho e bom Nostradamus andou fazendo algumas previsões? Haverá vigília, choro e ranger de dentes? Quantos músicos estarão compondo as últimas notas de um réquiem, temerosos de não conseguirem concluir? Esses músicos estarão apressados e combalidos como Mozart, assombrados pelo fantasma do fim do mundo? E os atores finalmente não precisarão mais ficar Esperando Godot? Na verdade, pouco se sabe. Pânico e histeria coletiva estão descartados, garantem os entrevistados pela Folha2.
A artista plástica Suzi Gheler, que hoje está abrindo a exposição Voando para o Ano 2000, no Aeroporto Internacional Afonso Pena, em Curitiba, é categórica: Não vai ter fim de mundo, ainda mais que vou inaugurar o meu trabalho. O meu mundo está começando, e vai ainda melhor a partir de hoje. Estou sempre caminhando para o melhor.
Para a taróloga Celina Fioravante, que também está com projetos em andamento, seria um desperdício se tudo se acabasse. Afinal, no dia 21 ela dá início a um curso sobre o uso das cores e florais. Fim do planeta só mesmo quando a humanidade mudar radicalmente seus valores, e abrir-se para novos destinos. Aí sim, tem-se o final deste e o início de outro, regido sob um novo pensar. Certamente não será um eclipse que vai dar o toque de mágica para a mudança.
Entre panelas e o fogão - este seria o cenário em que o chef de cozinha português Januário de Freitas, atualmente preparando as delícias gastronômicas no Restaurante Boulevard, em Curitiba, gostaria de ver o mundo ruir. Apaixonado pela profissão, ele queria estar vestido a caráter, com a minha farda. Antes, porém, iria preparar um Bacalhau com Migalhas de Broa, seu prato predileto.
Tudo isso, porém, é ironia. Pelo que ele imagina, o final será muito mais caótico, lento e triste. Se o homem não der um basta na autodestruição do planeta, como ele vem fazendo, aí sim, o mundo vai se extinguir. Os rios poluídos, as florestas devastadas, a população cada vez mais numerosa, transformará tudo isto num quadro desolador. Depende da consciência de cada um a preservação do planeta.
O publicitário José Oliva prepara-se para lançar na sexta-feira um cartaz com o texto Ouse Fazer. Será o segundo da série Para Fazer Cartaz, e outros estão programados para vir a público, futuramente. Com esses planos em dia, logicamente ele não aceita o destruir dos ponteiros.
O mundo acaba todo o dia, e quando amanhece é ele nascendo mais uma vez. Esse papo de fim do mundo é um absurdo, ele só existe porque as pessoas têm necessidade de colocar vidas nas mãos dos outros, do eclipse. O que elas precisam é tomar a responsabilidade para si sobre os seus atos. Já o meu mundo é a vida que faço dele, diz.
Em Londrina, o bailarino e coreógrafo Leonardo Ramos está preparando mais um salto mortal. Ele e o grupo de bailarinos esperam cumprir a agenda de amanhã, no Teatro Pe. José Zanelli, em Ibiporã, e assim, riscar o ar com mais uma coreografia consagrada. O mundo vai recomeçar na nossa apresentação. Por isso, acho imprescindível a apresentação do espetáculo Lúdico, que propõe um outro ser humano, diz o coreógrafo. Ramos não esconde a preocupação sobre a geração inteira de bailarinos que precisa formar. Mas se o mundo for acabar, que seja de uma maneira suave, para começar bem o dia seguinte, finaliza.
O agitador musical e radialista Paulão Rock and Roll está preparando uma programação do outro mundo, liberada apenas para os sobreviventes, na boate Psicato, em Londrina. Entre os escombros, a pauleira para o adeus geral é de Frank Zappa, com a música Debra Kadebra. É uma expressão correspondente ao nosso abracadabra. Zappa diz nessa música que gostaria que tivesse uma palavra mágica para colocar tudo em dia. Usar o abracadabra só para pedir algo positivo, resume o gigante Paulão, descrente do auê apocalíptico, pois a vida, para ele, é gostosa e incontrolável.
O jornalista, escritor e músico Bernardo Pellegrini vai beber até o último segundo do tempo nesse dia fatale. Essa idéia de fim de mundo vendida pela Igreja, na concepção de Pellegrini, marca o fim do cristianismo impregnado de pecado e culpa. Para ele, a Igreja é obcecada pelo fim, pela fatalidade.
A percepção do universo dos orientais é mais adequada do que a versão paroquial que conhecemos, englobando fome, peste e guerra, afirma. Ele acredita na junção das culturas oriental e ocidental, sólidas há mais de 20 mil anos, mas que não se cruzaram ainda. Como escritor, ele descarta a possibilidade de escrever o livro com o título Memórias Póstumas de Bernardo Pellegrini.
Se no caos desse mundo existe uma cor correspondente para tudo, para o fim do mundo também deve existir. Cor de burro quando foge? (nome bem apropriado). Ou vermelho? (um tanto quanto óbvia). Na colorida palheta do artista plástico londrinense José Gonçalves, vai explodir o branco, para pintar o último dia do calendário de Nostradamus. Pelo menos vai ser com a cor da paz, diz Gonçalves.
Ele assegura que não recebeu nenhuma encomenda de máscara mortuária, nem um último retrato de um desesperado. Felizmente, enfatiza. Mesmo se alguém encomendasse, de última hora, não haveria tempo hábil para concluir a obra. Acho que nem iria perder meu tempo com isso, garante José Gonçalves.





