E se o amor durar como uma flor?
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de setembro de 1997
Antônio Mariano Júnior 
Há quem despetale a primavera. Querem o amor-perfeito, um talo que por resignação responde em forma de risco verde: bem-me-quer. Mas o amor não escolhe estações. Às vezes, chega de trem, não sem antes passar suas janelas impassíveis por matos, vacas, arames farpados e florzinhas que nascem e morrem sem saber o que é primavera. Outras vezes vem pelo céu. Em outras ocasiões não vem nem quando se ofertam flores às águas do mar. O amor não depende de estações, de meio de transporte, de cheiro de carmim. O amor não depende da primavera para acontecer. As floriculturas sabem disso. Nem tudo é lindo na primavera; só as flores. E flores não servem apenas para cobrir alguém de e com vida. A primavera nada mais é que uma parente alegre e vistosa do inverno. O amor, muitas vezes, prefere o inverno. O amor é inconstante. Quando decide se assentar sobre o coração de alguém, esse alguém chama outro alguém de flor. E uma flor passa a ser uma flor - um procedimento instintivo. Mas alguém certamente há de cunhar tal frase: amar na primavera é um privilégio multicolorido. Ora essa, qual a lógica de amor e primavera? Simples: o amor, muitas vezes, dura como uma flor. Mas se passar de três meses é sinal de que não há motivo para se esperar o amor chegar de trem na próxima estação trazendo flores inclinadas pela languidez dos trilhos.


