E se a Palestina levar a Palma de Ouro ?
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quarta-feira, 22 de maio de 2002
Especial para Folha 2 
Cannes - Quando anunciou em abril a lista dos filmes em competição, a curadoria do 55º Festival Internacional de Cannes vendeu à imprensa mundial uma falsa idéia, aparentemente como salvaguarda diplomática. A de que, lado a lado na seleção, os representantes israelense e palestino eram dois filmes de paz. Não são. Principalmente Intervenção Divina, de Elia Souleiman, que pode ser qualquer coisa, menos um filme de paz. Aliás, é exatamente o contrário. Só que o realizador vai à guerra contra a ocupação israelense com as armas do espírito, especialmente a inteligência da audácia e do desespero. E com o humor, a mais subversiva e eficaz de todas - aqui um humor predominantemente de gags visuais.
A ressalvar: as idéias mais eficientes do filme são as mais simples.
Suleiman, também intérprete principal de Intervenção Divina, é uma espécie de Jacques Tati sintonizado em Buster Keaton. Na primeira metade do filme, uma série de sketches revela o absurdo e até a pervesidade de fatos banais do dia-a-dia, como a demonstrar que grandes guerras começam com pequenos delitos e castigos. São amostras de comportamento bizarro, quase surreal entre vizinhos, situações que provocam o riso como forma de acentuar uma tensão sempre presente, sempre asfixiante. Na segunda e decisiva parte, um homem palestino morando em Jerusalém e uma mulher palestina de Ramallah, sempre em silêncio, se encontram no unico lugar possível: o carro dele, estacionado em terreno ao lado da barreira montada por Israel.
Subtitulado uma crônica de amor e dor, o filme com certeza vai particularmente incomodar o júri, que deve buscar alternativas menos delicadas. De qualquer modo, Intervenção Divina e o documentário Bowling for Columbine dão a este festival uma forte conotação política.
(C.E.L.J.)


