ReproduçãoE Sampa resgata a origem do samba
CD reconstitui ritmos, compositores e traz um passeio pelas origens do samba em São Paulo
Ranulfo Pedreiro
Quando o batuque dos escravos se espalhou pelo Brasil, ritmos tão variados como o jongo, o lundu e a pernada foram recebendo sotaques regionais. Estes estilos tomaram parte na configuração do samba, que transbordou as fronteiras do Rio de Janeiro e Bahia e entrou em regiões como o interior e capital de São Paulo.
Enquanto no Rio de Janeiro a história do samba possui uma relativa documentação, inclusive a partir de pesquisas de jornalistas como José Ramos Tinhorão e Sérgio Cabral, entre outros, em São Paulo ela se constitui numa confusão de fragmentos com poucos registros.
DivulgaçãoOsvaldinho da Cuíca, Aldo Bueno, Germano Mathias e Thobias da Vai-Vai lançam CD.: história do samba com máxima fidelidadeFoi para juntar os cacos que Osvaldinho da Cuíca, um sambista prático que nasceu em pleno Carnaval, se dedicou ao projeto de reconstruir parte da história do samba paulista, justamente a que compreende as origens.
Entre suas experiências, Osvaldinho acumula gravações com bambas do naipe de Ismael Silva, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Beth Carvalho e Demônios da Garoa, grupo do qual fazia parte até poucos dias. Foi baseado neste conhecimento que ele se dedicou a uma compilação inédita: colocar em CD essa história, com o máximo de fidelidade.
O projeto resultou em ‘‘História do Samba Paulista 1’’, o primeiro volume de uma série, lançado pelo CPC-Umes. O disco ganhou narração e interpretação de Osvaldinho, com participações de Aldo Bueno, Germano Mathias e Thobias da Vai Vai. O lançamento traz um encarte cuidadoso que orienta o ouvinte por meio de cordões, vissungos, jongos, sambas-de-bumbo e uma gama de estilos e tendências que resultaram na rica convivência paulista com o ritmo.
O CD reafirma o equívoco de Vinícius de Moraes ao apelidar a cidade de ‘‘túmulo do samba’’. O repertório traz, já na abertura, uma raridade. Um vissungo reproduzido como supostamente era executado no século 18. O vissungo é um canto de trabalho que se tornou muito comum na região de garimpo de Minas Gerais. Como esta faixa, o álbum reserva mais surpresas: o partido-alto ‘‘Thiá de Junqueira’’, do final do século passado, é inédito em disco. Outra raridade é a versão de ‘‘Isto É Bom’’, lundu de Xisto Bahia que se tornou a primeira canção composta e gravada no Brasil.
‘‘Ao longo dos anos venho percebendo que o sambista prático, que toca, sabe das transformações que as batidas e os ritmos vêm sofrendo com o passar dos anos. É uma percepção que às vezes uma pessoa com conhecimento apenas teórico não tem’’, explica Osvaldinho da Cuíca.
O sambista revela que não pretende ser confundido com um historiador: ‘‘Nossa história merece um cuidado especial, eu tenho prática e conhecimento que recebi de sambistas antigos. Esse trabalho abre perspectivas, dá retorno, e deve ter continuidade, mas não sou um historiador’’.
Do disco o projeto ganha os palcos, no próximo dia 26, no novo teatro da Umes, no Bexiga, em São Paulo. A peça ‘‘A História do Samba em São Paulo’’ é uma adaptação: ‘‘Acho o CD descartável, com o tempo passa desapercebido. Mas uma peça pode se imortalizar se tiver êxito’’, garante. O álbum será distribuído pela Eldorado e contou com apoio do Fundo Nacional do Ministério da Cultura.

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