Para o secretário-geral da Academia Brasileira de Letras (ABL) e um dos gramáticos mais renomados do País, Evanildo Bechara, 76 anos, a questão apresentada por Alemida não tem a ver com algum problema de gênero que reflita um possível ''machismo'' da gramática. Há quatro anos ocupando a posição do imortal de número 33 (de um total de 40), Bechara explica que o assunto se refere a características das unidades linguísticas chamadas de ''marcadas'' e ''não marcadas''. Tradicionalmente e historicamente, conceituou-se que as unidades ''não marcadas'' absorvem as ''marcadas'', coincidentemente, aquelas são formadas por palavras masculinas e estas femininas. Por isso, a palavra 'homem' ''historicamente'' englobaria o significado de ''o homem e a mulher''.
''Acho muito perigoso que pessoas que não sejam da área, sem formação técnica específica, com argumentos aparentemente sólidos, discutam esse tipo de coisa. Não concordo que haja machismo na questão que propõe. É preciso cautela para não criar 'fantasmas ao meio-dia''', disse.
Bechara também comentou de alguns trabalhos recentes de pesquisa na área de linguística apontam que em algumas palavras a forma feminina se torna até pejorativa. Ao mesmo tempo, ele comentou que concorda que haja uma certa ''má vontade histórica'' dos dicionários quanto à grafia de verbetes femininos.
''A língua é antes de tudo um fato histórico, consequentemente composta por palavras que fazem parte da história da humanidade e contribuem para a formulação do pensamento'', afirmou.
''Não cabe à Linguística debater sobre a origem da linguagem, isso talvez caberia à Antropologia. De qualquer maneira, concordo que na sociedade moderna ainda há demonstrações de machismo. A mulher ainda não conseguiu atingir o lugar que merece; o homem ainda é privilegiado, principalmente nas sociedades islâmica e indígena'', acrescentou.
O idioma português é o 5º mais falado do mundo, alcançando 200 milhões de pessoas. A comunidade lusófona é constituída por Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bisau, São Tomé e Príncipe (os cinco últimos na África) e por Macau, Timor e Goa no Oriente, onde também esteve presente a colonização portuguesa.
A ABL, que teve entre seus fundadores o escritor Machado de Assis, comemora no próximo dia 20 de julho 107 anos de atividade.(A.P.N.)

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