Nelson Sato
de Londrina
Um fantasma ronda as noites das raves. Depois de um longo período de hibernação, o rock progressivo tenta pular do sarcófago direto para as pistas dos clubbers. É o que aponta os novos discos das bandas Yes e Marillion, além de declarações de integrantes do trio canadense Rush, para os quais a adesão às beats eletrônicas dançantes parece ter virado questão de sobrevivência. A novidade ameaça espantar os velhos seguidores do gênero.
O que pensará um fã do Rush, por exemplo, ao saber que Geddy Lee, Neil Peart e Alex Lifeson foram seduzidos pelas batidas lentas do trip hop e que poderão até rechear o próximo trabalho com composições dentro desse estilo? Pois é o que eles falaram em entrevistas recentes, uma delas concedida à revista brasileira Showbizz.
Bem, o consolo é que os fãs ortodoxos do Yes e do Marillion nem sequer foram avisados do que estava sendo tramado em seus estúdios de gravação. O resultado pode ser conferido agora nos respectivos CDs Friends & Relatives e Tales from The Engine Room, ambos lançados pela Roadrunner. No primeiro, o Yes revisita seu repertório e os projetos-solos de seus integrantes num álbum-duplo de dezenove faixas, cuja capa traz a habitual assinatura do artista gráfico Roger Dean.
O grupo está comemorando 30 anos de carreira. A coletânea inclui duas músicas da banda (‘‘Close to the Edge’’ e ‘‘America’’), quatro do vocalista Jon Anderson, quatro também do guitarrista Steve Howe, seis do tecladista Rick Wakeman, duas do baixista Chris Squire e uma da parceria Bill Bruford-Earthworks. O susto vem logo na faixa de abertura, com um remix dançante do hit ‘‘Owner Of A Lonely Heart’’.
Se a canção teve grande importância na década de 80, marcando uma virada na sonoridade da banda com a substituição dos timbres limpos e texturas etéreas por guitarras distorcidas e baterias pulsantes, a versão techno constrange. É simplesmente bisonha, sugerindo apenas oportunismo e revertério de cinquentões querendo se apegar a ritmos da moda.
Não convence também as faixas extraídas dos álbuns-solos de Jon Anderson, todas torturadas por uma bateria programada. Há até uma tentativa frustrada de misturar ritmos, incorporando o ragga para ‘‘parecer’’ moderno. Pior só os teclados embolorados de Rick Wakeman. O alívio fica por conta dos registros acústicos ‘‘ao vivo’’ de Steve Howe e as duas faixas gravadas coletivamente.
O CD Tales From The Engine Room, por sua vez, apresenta uma dose letal para a facção empedernida dos seguidores do Marillion. A propaganda do disco é um acinte (para eles): ‘‘A primeira vez que uma banda de rock tem um álbum totalmente remixado por um equipe de DJs’’.
A equipe, no caso, é o Positive Light. O projeto parece obedecer às inquietações de Steve Hogarth, responsável pelas mudanças impostas ao som da banda ao longo dos anos desde sua entrada nos vocais no lugar do grandalhão Fish. As modificações imprimiram um estilo menos pomposo ao Marillion, apagando um pouco a imagem atribuída ao grupo de ser uma cópia deslavada do Genesis.
Há até quem veja mais afinidades da banda com o heavy metal do que propriamente com a vertente progressiva. Mas o novo trabalho avança para outras direções, arriscando um confronto com seu público fiel. A idéia do disco foi gestada há três anos, quando os DJs procuraram o quarteto britânico para estender uma ponte entre o rock progressivo e o som eletrônico.
O álbum escolhido para isso foi This Strange Engine, que vendeu mais de 300 mil cópias no mundo todo. O projeto resultou em seis remixes a partir de abordagens techno e poperô (a dance comercial que polui FMs, academias de ginástica e clubes de quinta categoria).
A masterização foi feita no estúdio Abbey Road pelo produtor Peter Mew, celebrizado no meio por ter trabalhado em álbuns do Pink Floyd e no Anthology dos Beatles. A experiência, todavia, empaca na incompatibilidade entre melodias e vocais arrastados e vestimenta acelerada. Há mais colisões do que aproximações aqui. Ficou esquisito, de teor duvidoso tanto para o rebanho progressivo quanto para a comunidade raver.As bandas Yes e Marillion tentam pegar a onda da música eletrônica em seus novos trabalhos
Arquivo Folha e reproduçãoYes: na formação dos anos 70 que agora comemora os 30 anos de carreira com o disco ‘‘Friends & Relatives’’, com direito ao remix de ‘‘Owner Of A Lonely Heart’’,Arquivo Folha e reproduçãoSteve Hogarth, vocalista do Marillion: responsável pelas mudanças sonoras do grupo e o CD ‘‘Tales From The Engine Room’’, em parceria com a equipe de DJS The Positive Light

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