Pergunta, resposta. Pergunta, resposta. O que acha disso, o que acha daquilo, como foi, quando foi, como é que foi, o que aconteceu, tudo respondido com paciência, mesmo que em alguns momentos fosse preciso ela franzir a testa para se lembrar de algumas datas e fatos. Mas quando o assunto a ser abordado é cinema, a moça alta e bonita (e inteligente) se ajeita melhor na cadeira, põe a mãos sobre a mesa e deixa escapar um ‘‘oba’’. O motivo é simples: há 20 anos ela vem assistindo a filmes também por uma ótica mais técnica, analisando cuidadosamente cada detalhe que vê na telona ou, por que não, na telinha.
Ela, no caso, é a londrinense Paola Victorelli Jozzolino. Que estudou direção de cinema no Lee Straberg Institute, em Nova York, ligada a escola Actor’s Studio, por onde já passaram alguns mitos cinematográficos como James Dean e Marilyn Monroe. Na época em que estudou, em 83, o diretor do instituto era Robert de Niro. Pois bem. Para chegar lá, Paola foi recomendada a Ana Straberg, mulher de Lee, por um tio. Mas isso não pode ser encarado como uma ajudazinha extra ou coisa que o valha já que por lá o que manda ainda é talento. E, principalmente, determinação.
Como ela tinha esses requisitos, foi. Submeteu-se a um exame de seleção com outras 14 pessoas. Restaram quatro - três optaram por fazer curso de atuação e ela, a mais nova, escolheu direção de cinema. Fez oito meses de curso - o tempo de duração varia de aluno para aluno e pode se estender em até dois anos. O curto período em que estudou se deve ao fato de Paola trazer uma certa bagagem composta por alguns cursos de teatro na Europa.
Em outras palavras, não era uma leiga nem muito menos uma jovem que cismou em se embrenhar no cinema por mero capricho. ‘‘Eu até questionava o curso em algumas partes’’- diz ela. ‘‘Mas eu estava onde queria. Tinha um objetivo que era chegar à melhor escola de cinema do mundo, que é a americana’’- completa. Lá, seu primeiro professor foi Arthur Sheerman. O mesmo que, em certa altura do campeonato, a aconselhou a seguir um caminho específico dentro da área. Ela ficou de pensar no assunto.
Na terra do cinema, aprendeu a ignorar algumas máximas, entre elas a de que para fazer cinema bastam apenas uma idéia e uma câmera na mão. ‘‘Cinema é estudo, pesquisa, marketing e pelo menos 20 por cento de talento’’- diz Paola. Lá profissionalismo não é um elogio; é filosofia de trabalho. E é por causa de ‘‘filósofos’’ competentes que a engrenagem cinematográfica movimenta, anualmente, a bagatela de US$ 12 bilhões.
Mão na massaDepois da temporada americana, uma passadinha pelo Brasil. Do Brasil, um pulinho em Verona, na Itália, para ver a família. De lá, o retorno para Nova York, onde ingressou numa outra escola de expressão - a ‘‘Young Filmaker’’. Isso porque Sheerman, seu professor e uma espécie de guru (no início pelo menos), deu-lhe um recado claro, direto e objetivo: ‘‘Ponha a mão na massa’’. E Paola pôs durante oito meses.
Algumas experiências no currículo e Paola retorna ao Brasil. Mais especificamente, a São Paulo, onde reside atualmente. Era 86. Na terra brasilis, trabalhou em cinema publicitário através de algumas produtoras como a Fathon Filmes e Chroma Filmes. No total, 57 filmes em que ela fazia, assistência de direção, direção de fotografia, casting e direção. No currículo, clientes como Staroup, Santana Quantum, entre outros. Em meio a números, uma certa decepção. ‘‘Cheguei com uma boa bagagem profissional e encontrei alguns autodidatas, extremamente capazes, mas com falhas de produção. Isso levava a gastos enormes’’- analisa.
Entre 87 e 94, uma breve parada para se dedicar à direção de arte e cenografia que incluia design , design de interiores, cenografia. Nessa área, seu currículo ganhou algumas linhas a mais. Paola, por exemplo, foi quem ajudou a reestruturar a antiga TV Tupi, onde hoje funciona a MTV e a TVA.
‘‘Junto com outros profissionais demos a identidade visual; criamos a cara do espaço físico da TV’’ - diz ela. ‘‘O que fizemos nesse foi cenografia. Para mim, tudo o que é mutável num breve espaço de tempo é cenografia. Um projeto arquitetônico demoria pelo menos três anos’’- explica. Nesse meio tempo, Paola ainda trabalhou com logotipos - entre os clientes, a Editora Abril.
Atualmente, ela trabalha na programação de pilotos para séries de TV e também longas metragens. É uma Producer que, em breves palavras, é quem escolhe roteiros, organiza e escoa a produção, entre outras funções. O grande passo deve ser dado em breve - ela está se preparando para montar uma produtora de programação de TV, que faria pilotos e acompanharia a produção.
Isso aconteceria dentro de estrutura de alguma produtora.‘‘Tenho bons contatos que vão me abrir as portas que devem ser abertas’’- afirma, enigmática.
RedemoinhoCinema Brasileiro. Paola Victorelli não faz parte do time que vive suspirando aos quatro pontos cardeiais que a produção nacional está ressuscitando com tudo depois de sucessos como ‘‘Carlota Joaquina’’ e ‘‘O Qu4trilho’’. Ela vê tudo isso com cuidado, ou melhor, com imparcialidade. Ainda há muito o que se fazer para que o cinema nacional ganhe o tão propalado fôlego e, consequentemente, reverência maior por parte do público.
Falta, entre outras coisas, segundo ela, apuro técnico. ‘‘Falta consideração por parte dos meios de distribuição e humildade por parte dos profissionais’’- afirma. É é com esse argumento que ela aponta algumas críticas que não podem ser interpretadas como desdém ou, na pior das hipóteses, pessimismo. ‘‘Para se fazer cinema tem que ter a receita americana. Ou seja, não podemos copiar o estilo e sim o modo de fazer cinema’’- diz. ‘‘Até a época da Atlântida o cinema nacional existia. Depois de Glauber Rocha, nosso cinema entrou num redemoinho da arte pela arte e dele não se saiu até hoje’’- completa.
Uma de suas teorias é que cinema tem que espelhar primeiramente a história de um país. Nesse sentido, ela aponta ‘‘O Qu4trilho’’ com um bom exemplo, apesar dos muitos ‘‘poréns’’ que o filme tem. ‘‘Tieta’’, apesar de ser baseado na obra de Jorge Amado, também não a agradou. Dos diretores brasileiros, ela cita - sem muito entusiasmo - Cacá Diegues. E olhe lá, hein!
No início, teatroPaola nasceu em Londrina onde viveu até os 7 anos, antes de se mudar com a família para Verona. Vira e mexe vem para cá. ‘‘Mas faço questão de dizer que sou londrinense’’- avisa. Viveu entre muitos livros, muito teatro, enfim cercada de cultura. Intelectualizou-se a ponto de, aos 12 anos, escrever sua primeira peça teatral. - ‘‘Processo à Helena de Tróia’’ - que chegou a ser encenada em Verona por um grupo amador.
Sim, o teatro aflorou primeiro, embora afirme categoricamente que o cinema sempre tenha lhe tocado mais profundamente.‘‘Eu cresci assistindo a muitos espetáculos de teatro e de ópera, mas sempre gostei de cinema. O teatro me serviu como experiência’’- avisa. A tal experiência lhe rendeu outras oito peças. Uma delas - ‘‘Marionetes sem Fios’’ chegou a ser encenada em Londrina, em 79.
Apesar de ser intelectualmente ativa, entretanto Paola demora para responder a uma pergunta básica: como ela, profissionalmente, se classifica. Pensa, pensa, pensa e pensa mais até que, por sugestão, ela acata um rótulo: multimídia. ‘‘Se fosse para me definir eu diria: sou uma capricorniana’’- diz. Então, tá!

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