E o vendo da criatividade volta a soprar...
E o vendo da criatividade volta a soprar...
France PressA francesa Elodie Bouchez, forte candidata a melhor atriz, e o
diretor Erick Zonca: prodígio em A Via Sonhada dos AnjosB
ons ventos trazem bons filmes à competição. O medo de uma seleção pouco inspirada como a do ano passado já não existe. Os filmes em geral têm se mostrado provocantes, inventivos, com fôlego de criatividade. Exasperantes alguns, mais contemplativos outros. Além da competição, as outras seções também reservam coisas de grande valia. Como o melhor filme visto em Cannes até o momento (e provavelmente até o fim), a estupenda lição de cinema do velho mestre sueco, Ingmar Bergman, que completa 80 anos daqui a alguns dias. Mas ele e sua obra-prima En Presence dUn Clown exigem outro espaço e mais calma.
Com The General, o inglês John Boorman fez uma das melhores entradas este ano em Cannes, até o momento. Não, não se trata da biografia de um militar, com quepe e dragonas. Em vez do uniforme, camisetas e jeans. Em vez de tropas, um bando de ladrões dos quarteirões miseráveis de Dublin. No lugar de operações e manobras, audaciosos e insolentes roubos à mão armada, no nariz e nas barbas da polícia e da justiça. Martin Cahill (Brendan Gleeson, candidatíssimo a melhor ator), criança pobre abusada por padres e policiais, transformada em criminoso legendário e finalmente abatido por um assassino do Ira, é o novo herói de John Boorman.
Em preto-e-branco, o cineasta de Excalibur conta a história deste fora da lei, desde a infância pobre como órfão de pai e arrimo de família e a revolta contra todas as instituições - Igreja e Polícia, em especial, até sua ascensão nos caminhos do crime. E a personalidade exuberante, calorosa em família, provocador, às vezes extremado e bufão, generoso, violento e hilário - de resto especialidades irlandesas. Fascinante ambos, personagem e filme. Daquele tipo de fascinação que deve com certeza ter perturbado e muito o presidente do júri, Martin Scorsese, de cuja influência decisiva sobre os demais ninguém duvida.
Duas interessantes incursões francesas. La Classe de Neige, de Claude Miller, é a história nada comum de um garoto, Nicolas. Frágil, grave, perturbado, vive rodeado de fantasmas providenciados por uma imaginação em fuga. Um dia ele parte em classe de neige, uma espécie de retiro escolar na montanha invernal. Longe de proporcionar conforto, a viagem e a experiência vão marcar sua vida para sempre, com acontecimentos reais ligados à sua família muito mais aterrorizantes que seus fantasmas. Um pouco melodramático, mas de nível geral satisfatório.
Já La Vie Rêvée des Anges(ou A Via Sonhada dos Anjos), do estreante Erick Zonca, é um filme surpreendente, muito talentoso, com duas atrizes jovens e já prodigiosas, Elodie Bouchez (na reta de premiação) e Natacha Regneir. A história não muito feliz de duas amigas saindo da adolescência é o centro de uma narrativa tranquila, sem efeitos, que prefere ir ao fundo olhos e dos corações dos personagens. De certa forma, um filme contra a corrente do cinema mais em voga.
Um retrato ácido, corrosivo de conflituosas relações familiares é o prato principal servido no banquete de Festen, do jovem Thomas Vinterberg - fez 28 anos aqui em Cannes. A aparência da família Klingenfelt é tranquila. Tudo começa bem. Eles e alguns amigos estão reunidos para celebrar os 60 anos de Helge, o pai. Mas há segredos e ressentimentos.
No discurso de saudação, o filho mais velho acusa o pai de ter abusado sexualmente dele e da irmã quando eram crianças. Por causa disso, a irmã cometeu suicídio no ano anterior. A partir disso, a festa vira um caos, a noite se transforma num pesadelo delirante. O tom é idiossincrático, o filme é via de regra inventivo como experiência que mistura comédia e drama. Shakespeare teria aplaudido.
Aquele que já foi chamado de Godard americano está de volta a Cannes. É o americano Hal Hartley, darling dos festivais europeus em geral, autor de Simple Men e Amateur, trouxe agora na bagagem seu tema recorrente e obviamente preferido: a incerta geometria dos relacionamentos entre as pessoas numa América que nunca está certa de seus valores.
O herói do filme, Henry Fool, vindo não se sabe de onde, é impenetrável. É um ladrão, um gênio, um megalômano, um grande escritor? De qualquer modo, ele subverte a vida medíocre de Simon, que se torna um poeta-pornógrafo célebre e reconhecido. Mas resta uma questão: conseguirá Simon fazer uma carreira sem Henry Fool. Mais uma comédia dramática, não desprovida de interesse, mas que não chega a justificar a expectativa em torno de Hartley.
São dois os exemplares taiwaneses em competição. Até aqui somente foi exibido Dong(ou O Buraco) de Tsai Ming-liang. Considerado prodígio devido a dois títulos anteriores, Viva o Amor e O Rio, o diretor ataca de pura claustrofobia. Espécie de conto minimalista fin de siécle, é a história da mesma solidão compartilhada por duas pessoas.
Em Taiwan, uma semana antes do fim do milênio, a chuva não cessa de cair. Uma estranha doença toma proporções de epidemia. As autoridades ordenam uma saída em massa da população. Entre poucos, duas pessoas resistem num grande bloco de apartamentos. O vizinho de cima e a vizinha de baixo. Não há nomes. A única coisa a ligar os dois é um buraco que a infiltração abriu no andar de cima. O homem passa a espionar a mulher. Uma insólita relação se estabelece, até o momento em que ela é acometida pelo vírus desconhecido.
Quase nada acontece na superfície, em O Buraco. Apesar da ausência quase total de qualquer ação, a segura direção de Tsai Ming-liang não deixa que o espectador desvie a atenção do tédio e da náusea que regulam aquelas duas vidas. E a conclusão não poderia ser mais inventiva. E sublime.





