Acima dos homens, a lei. Acima da lei, o dinheiro. O documentário ganhador do Oscar deste ano, ''Trabalho Interno'' - que estreia hoje na programação do Cine Com-Tour/UEL - disseca em detalhes as verdadeiras causas da crise econômica americana, que estourou no final de 2008 e ainda causa reflexos preocupantes nas economias ao redor do mundo.
Revelando minuciosamente os bastidores obscuros de Wall Street, o documentário do cineasta Charles Fergunson é baseado em uma pesquisa profunda e ancorado em entrevistas reveladoras com políticos, diretores financeiros, acadêmicos e jornalistas que estiveram, direta ou indiretamente, relacionados com a crise. Os capítulos que dividem o roteiro de ''Trabalho Interno'' buscam demonstrar, passo-a-passo, o processo que ocasionou o surgimento da imensa 'bolha' financeira, que há dois anos explodiu e prejudicou irremediavelmente a economia global.
A crise não foi um acidente inevitável. Enquanto tudo parecia prosperar economicamente, nas entranhas de Wall Street milhares de operações irregulares estavam sendo realizadas, e foram essas atitudes que desencadearam graves consequências - as jogadas fraudulentas feitas no coração financeiro dos EUA acumularam prejuízos de aproximadamente US$ 20 trilhões e, em efeito cascata, causaram a perda do emprego e da moradia de milhões de pessoas ao redor do mundo.
Ainda mais chocante do que a conduta criminosa dos altos executivos em Wall Street é o tamanho das ramificações desse esquema; mesmo sabendo das consequências catastróficas, muitos políticos, avaliadores de risco e professores renomados tiveram suas opiniões 'compradas' para legitimar os riscos que as grandes corporações estavam prestes a assumir. Ao invés de serem punidos por essas fraudes, os principais nomes envolvidos multiplicaram suas riquezas após a crise e - assim como o atual secretário de Tesouro dos EUA, Timothy Geithner - ainda ocupam cargos de destaque no governo.
A narrativa - feita pela voz de Matt Damon - pauta a narrativa do documentário com um tom sombrio e racional, e são poucos os momentos em que as entrevistas, conduzidas por Fergunson, se deixam levar para um lado mais emotivo. Em uma dessas ocasiões, o diretor rebate o entrevistado que se declarava inocente, apesar de ter assumido fraudar milhões de dólares. ''Você não pode estar falando sério'', espanta-se o cineasta. Essa é a mensagem nas entrelinhas de ''Trabalho Interno'': a crise do sistema não é apenas financeira, mas também moral.

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