E o equívoco se fez em sete dias...
PONTO DE VISTA
E o equívoco se
fez em sete dias...
Joel Gehlen
De Curitiba
Especial para Folha2
- O rei está nu!
Gerald Thomas foi brindado com esta saudação, em alto e bom som, ao fim do primeiro dos dois espetáculos apresentados, segunda-feira, no Festival de Teatro de Curitiba. A sensação que ficou é de que não vai dar para continuar enganando todo mundo o tempo todo. E agora Gerald? Por outro lado, astuto leitor, pode ser que o entendimento deste escriba tenha entortado.
A peça Coro/Camarim - Uma Tragédia Rave começa com o diretor justificando que está em temporada no Rio de Janeiro com Ventriloquist, um grande sucesso de público, e que por isso não pôde aprontar o espetáculo que, por razões contratuais, tem de apresentar no festival. Escrevendo duas peças - Coro e Camarim, ambas previstas para o festival - Gerald resolveu juntar os fragmentos de cada uma e servir à platéia curitibana. Prato cheio para um diretor que adora obras em progresso, intervenções em meio à cena em andamento, ensaios abertos, happenings e jogar na cara do público - e, principalmente, da imprensa - que ninguém está entendendo nada. Tinha que dar no que deu. Vamos aos fatos.
A primeira parte de Coro/Camarim é uma festa - daquelas do jeito que o diabo gosta - com uma belíssima cenografia, quadro a quadro, de danças e brigas. Das falas não se aproveita muita coisa. É sempre o mesmo franco-atirador dizendo coisas desconexas, mas com endereço certo: a imprensa, o público, o teatro, a televisão. Está sempre polemizando sobre o que disseram e o que vão dizer a seu respeito e de seu trabalho. Quando acaba a primeira parte, instala-se uma situação pirandeliana, em que as luzes se acendem e os atores começam um bate-boca. Aí é que a porca torce o rabo.
Inicia uma lavação de roupa suja sobre o processo de produção de Gerald, a forma de direção do Gerald, o que Gerald quer dizer com isso ou aquilo, com quem Gerald deita ou deixa de deitar. Enfim, um interminável exercício de egolatria. Por fim, entra no tendepá a própria organização do festival: a montagem da peça teria parado porque o cachê foi muito baixo, e ainda faltava ser depositada uma segunda parcela. Pois, pois. Surgem as interrogações: Está tudo dentro do roteiro? Foi tudo meticulosamente estudado, um improviso ensaiado? Ou será que está apenas pagando mico para todo mundo, inclusive para o distinto público pagante? Neste caso, a cena está mais para pilantreliana que para pirandeliana.
A segunda peça da noite Ventriloquist, é o mesmo engano. A mesma farsa deslavada, inconclusa, maçante e vazia. Sintomaticamente, também ambienta-se em uma festa - desta vez uma festa vamp - entre falas ininteligíveis, berros e discursos quase messiânicos. A mesma fragilidade, desta vez, sem a desculpa que tudo foi feito em sete dias.
Na coletiva, ontem pela manhã, Gerald Thomas afiançava que tudo era para ser como foi. Que não há improviso, o espetáculo está pronto e que foi uma maravilha, pois possui uma mecânica de alto risco, teve apenas sete dias para a montagem e acabou arrebatador e emocionante.
Em meio a tantas nebulosos, não resta dúvida de que o culto ao mito, contra o que Gerald tanto pragueja, é sua mais constante prática.





