'É muito complicado fazer novela'
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de setembro de 2009
Tatiana Piva<br> Agência Estado 
As paredes que o cercam são velhas e pichadas, as janelas têm roupas penduradas e as pessoas que passam pedem autógrafos e abraços. Sidney Santiago, de 25 anos, se sente em casa. Há uma semana, vive em um prédio ocupado por sem tetos no centro da capital paulista. Ali, procura inspiração para interpretar um personagem sem moradia no filme ''Antes da Noite'', de Toni Ventura, ainda sem previsão de estreia no cinema.
Mas o mais surpreendente está nas palavras do ator que acaba de fazer o personagem esquizofrênico Ademir, na novela ''Caminho das Índias''. Sidney falou do ''clima hostil'' que sentia nos bastidores da novela da Globo, do ''tratamento diferenciado'' a brancos e negros e do ambiente de ''futilidades'' que percebia. Procurada pela reportagem, a Globo informou que não faz comentários sobre a opinião pessoal de seus profissionais. Confira trechos da entrevista:
CONVITE - ''É muito complicado fazer novela, porque ela vai muito direto no cotidiano das pessoas. É você vincular a sua imagem a muitas ideias que não valem a pena. É complicado. Eles falaram que eu seria um personagem esquizofrênico, daí tive mais medo ainda. No nosso audiovisual e na nossa teledramaturgia, a maneira que eles retratam o esquizofrênico é muito torta. Achei que não era para mim naquele momento (depois, o ator foi novamente convidado e resolveu aceitar o papel).''
BASTIDORES - ''As pessoas que estão lá (nas novelas) foram educadas para ter um tratamento com brancos e outro com os nordestinos, negros e ameríndios. É mesmo assim, se você é branco, você tem um tratamento e, se você é preto, tem outro e ponto. Isso é uma conclusão.''
RESULTADOS - ''Eu tinha muitos preconceitos com a novela, com o formato, com a televisão. Mas vi (lá) muita gente jovem, muita gente querendo fazer, lutando por uma TV mais digna, mais justa, num País como o nosso. Saí dessa novela feliz. Foi muito positivo o que eu fiz.''
TELEVISÃO - ''Fazer novela para mim é um bico. Meu trabalho é no teatro. Gosto de uma arte que provoca e a TV não te provoca, ela te anestesia. É bom ser anestesiado, mas não a todo tempo.''
FUTILIDADE - ''(A televisão) não é um lugar em que você vai fazer uma amizade. Você vai lá, faz o seu trabalho e vai embora. É muito hostil. Geralmente as pessoas que fazem televisão têm outras prioridades de vida. É difícil falar isso sem julgamento, mas é um lugar em que a futilidade impera. Há futilidade nas relações. Você não se aprofunda em nada.''
NEGROS - ''Tenho uma militância de quase 10 anos no movimento negro. Sou formado pela Escola de Arte Dramática (EAD) da Universidade de São Paulo (USP). Quem pagou meus estudos foi a população. Então, antes de mais nada, eu tenho um compromisso social. Não dá pra você sair de uma universidade pública e fazer só comercial da Coca-Cola. Pode até fazer, mas que fomente outros setores.''
GERAÇÃO - ''Eu não tenho uma geração porque metade dela é morta pela polícia. Então, esse País não vai ter futuro. Esse jargão... a Globo adora dizer... 'Criança esperança', 'o futuro do Brasil é o jovem'... Os jovens desse País são mortos pela polícia.''


