E LÁ SE FOI O MORENGUEIRA...
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terça-feira, 06 de junho de 2000
Agência Folha 
O compositor Antônio Moreira da Silva, 98, o Kid Morengueira, morreu ontem pela manhã no Rio de Janeiro. Moreira da Silva, que estava internado há 23 dias na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital dos Servidores do Estado (na Praça Mauá, região central do Rio), morreu de falência múltipla dos órgãos, às 9h20.
O sambista estava hospitalizado desde o final de abril por causa de um tombo que havia levado em casa. Enfraquecido, ele havia caído da cama e, com fortes dores, foi levado para a clínica Santa Terezinha, uma clínica particular na Tijuca (zona norte), onde ficou internado.
Em meados de maio, a família do compositor entrou em contato com a direção do Hospital dos Servidores, pedindo uma vaga para que Moreira fosse transferido. A família do compositor não tinha mais como pagar a internação na clínica particular, a conta já chegava a R$ 60 mil. Na última semana, o estado de saúde de Moreira da Silva se agravou, e o compositor perdeu a consciência.
O velório aconteceu no teatro João Caetano, no centro do Rio. A família, porém, não havia decidido se o corpo seria enterrado ou cremado, um pedido que o compositor havia feito a seus parentes.
Apesar do pedido feito à família, em entrevista, em janeiro do ano passado, Moreira disse que, para se prevenir, já havia comprado há alguns anos o próprio túmulo no cemitério do Catumbi (zona norte) O verdadeiro malandro não se deixa surpreender pela morte, disse à época.
O cemitério fica ao lado do modesto apartamento onde ele morava, no bairro de Catumbi, onde passou a maior parte da vida. Lugar no qual recebia os raros amigos que lhe restaram e de onde, mesmo debilitado fisicamente, saía para homenagens e shows frequentes, até o ano passado.
Os shows que Moreira ainda fazia não eram apenas para o seu prazer: serviam para complementar a pensão a que tinha direito por ter se aposentado como funcionário público estadual, em 1958, após 32 anos de serviço. O fato de ter trabalhado a vida toda era contraditório com a imagem de malandro que Moreira da Silva criou para si mesmo.
Na verdade, tratava-se de uma estratégia de marketing pessoal. A malandragem, na tradição do Rio antigo, era a arte de viver com o esforço alheio. Para manter a imagem, o sambista só saía de casa vestido impecavelmente de sapatos brancos, ternos de linho da mesma cor, chapéu de palhinha e camisa de seda laranja. Era o markentig utilizado pelo artista. E que deu certo.


