Os franceses saíram na frente. No primeiro minuto deste domingo, dia 6, quando estarão faltando exatamente mil dias para o ano 2000, será aceso na Torre Eiffel um luminoso de 33 metros de largura, 12 de altura, 32 toneladas de peso e 1.342 lâmpadas, para marcar a contagem regressiva até o primeiro dia do terceiro milênio. Os franceses viverão o que pode ser chamado de ‘‘avant-premiere’’ do réveillon do ano 2000. E, quanto mais avança a contagem regressiva, mais aumentam as especulações em todo o mundo. A curiosidade pode ser resumida na pergunta que já deu samba: como será o amanhã?
E tome samba! Desde já, há hotéis aceitando reservas para o último ‘‘réveillon’’ deste século. E, entre tantas previsões para todos os gostos e religiões, pelo menos duas delas dão uma idéia do que os especialistas em comportamento humano definem como a grande incoerência do século: se, de um lado, as grandes potências voltam a acelerar as missões em busca de outros mundos e aumentam as discussões em torno da suposta existência de seres extraterrestres, de outro, em plena era espacial, descobrem-se, aqui mesmo, na Terra, povos mantendo ainda hoje o mesmo estilo de vida de seus antepassados de centenas de anos atrás.
As pesquisas médicas e científicas avançam tanto que certas previsões reservadas para depois do ano 2000 já se concretizaram antes - estão na moda as discutidas clonagens de plantas e seres humanos, por exemplo. Mas o homem ainda enfrenta o sério desafio das doenças tropicais - além da Aids -, problemas que, tudo indica, terão suas soluções adiadas para o próximo milênio.
Certas previsões são sombrias. A Organização Mundial de Saúde prevê que o mundo entrará no ano 2000 com cinco milhões de órfãos, em consequência da Aids. No Brasil, segundo o Ministério do Planejamento, o déficit de casas poderá chegar a onze milhões, até lá. E em todo o mundo a água poderá justificar efetivamente a fama de ‘‘precioso líquido’’. De acordo com estudos do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais, ligado ao governo americano, o próximo século deverá ser marcado por guerras pela disputa da água, em regiões como o Norte da África e o Oriente Médio.
Mas nem tudo é tragédia. A Rede Globo prepara o lançamento da ‘‘novela do ano 2000’’, escrita por Lauro César Muniz. Os nascidos no dia 29 de fevereiro de 1996 poderão, finalmente, comemorar seu primeiro aniversário, por obra e graça do ano bissexto. O cientista chinês Zhang Anju, da província de Sichuan, aguarda ansiosamente a chegada do ano 2001, quando, pelas suas previsões, nascerá o primeiro urso panda de proveta do mundo. Já o Livro de Recordes Guinness deve reservar espaço para a inauguração do maior edifício de escritórios do mundo, prevista também para 2001. O prédio, idealizado por um consórcio de empresas japonesas em Xangai, na China, terá 460 metros de altura, 95 andares e 316.900 metros quadrados de área construída, a um custo de US$ 740 milhões.
Mas a ‘‘operação imobiliária do século’’, como vem sendo chamada, acontecerá exatamente na passagem de 1999 para o ano 2000, quando os panamenhos festejarão a devolução do Canal do Panamá pelos Estados Unidos. A operação, que envolve uma região de 915 milhões de quilômetros quadrados de terra, com mais de sete mil edifícios e centenas de casas luxuosas, poderá render aos cofres panamenhos algo em torno de US$ 30 bilhões.
Perto dali, mais precisamente em Pasadena, na Califórnia, um grupo de religiosos aguarda a passagem de 1999 para o ano 2000 sem a mesma euforia de seus vizinhos. Os adeptos da Irmandade Cristã Vineyard têm rezado fervorosamente, com medo de que o mundo acabe até lá. Isso também aconteceu quando o mundo chegou ao ano 1000, segundo o historiador Jules Michelet, mas, como se vê, as previsões acabaram não se confirmando.
Agora, são invocadas as profecias de Nostradamus e a Bíblia, que diz num de seus capítulos: ‘‘As próprias forças dos céus estão abaladas, os homens definharão de medo, o sol escurecerá...então, verão o filho do Homem. Quando tudo isso começar a acontecer, alegrai-vos, levantai vossas cabeças, porque se aproxima a vossa libertação.’’ (Mateus, cap. 24; Marcos, cap. 13; Lucas, cap. 21.)
O pastor John Arnott tranquiliza os fiéis de Pasadena: ‘‘Fique tranquilo, meu rebanho. É um grande prazer para o pai dar-lhes o seu reino’’. De certa forma, o historiador Paul Kennedy também tranquiliza os medrosos, em seu livro ‘‘Preparando-se para o século XXI’’. Para ele, em vez de temer o futuro o homem precisa se preparar para enfrentar os desafios do próximo século.

mockup