É dia de torcer por 'Cidade de Deus'
Somos bissextos nesta festa. E se coincidência ajudar, não se esqueça de que hoje é 29 de fevereiro. Outra data igual, só daqui a quatro anos. E outra chance como esta, quatro indicações, inclusive melhor diretor e roteiro... Ganhar as quatro estatuetas, nem pensar. Uma pelo menos, ou duas quem sabe, montagem e fotografia, prêmios merecidos se cotejados com os outros candidatos - difícil será tirar o Oscar de direção de Clint Eastwood ou Peter Jackson, ou o de roteiro adaptado na aventura de Jackson quando foi às entranhas do universo de Tolkien. Muito de vez em quando somos lembrados não como parte da audiência que assistiu a cerimônia pela tevê, mas até para sentar à mesa e participar do banquete. ''O Que é Isso Companheiro'', ''O Quatrilho'', ''Central do Brasil'', Fernanda Montenegro.
Já somos recordistas. ''Cidade de Deus'' é o primeiro filme em toda a história do Oscar que recebeu quatro indicações em categorias importantes depois de ter sido preterido no ano anterior como indicado a melhor filme em língua estrangeira. Não se sabe bem qual o peso curricular dessa façanha, além do estatístico. É uma espécie de recorde, sem dúvida, mas que não acrescenta muita coisa.
Ao contrário de outros anos e de outros filmes que apresentaram suas candidaturas e foram recusados, ou foram nominados, mas não levaram o Oscar, desta vez o lobby funcionou. Mas independente de tramas e aliciamentos e adulações e trocas de favores, Meireles, o roteirista Bráulio Mantovani, o montador Daniel Rezende e o fotógrafo César Charlone, todos merecem o reconhecimento por um trabalho admirável que há quase dois anos vem conquistando prêmios e críticas influentes mundo afora.
No Brasil, o filme ainda enfrenta um nicho minoritário de detratores - as ''viúvas'' da ''estética da fome'' proposta pelo Cinema Novo do anos 1960 - que viram no filme a apologia da ''cosmética da fome'', ou a estética do videoclipe e da publicidade cosmetizando a bruta realidade social. E esta resistência deve agora ter sido reforçada pela sombra da estatueta. Longe de imprópria ou maniqueísta, a polêmica só vem fertilizando o solo ainda não muito adubado do período da pós retomada.
Em tempo: há um animalzinho estressado mas muito simpático e hilariante no curta de animação ''Gone Nutty'' (aquele esquilinho de ''A Era do Gelo'', estão lembrados ?), criado e dirigido por Carlos Saldanha. É mais um Oscar na alça de mira de um brasileiro.





