É DIA DE BRASIL EM CANNES
No total são cinco, os títulos brasileiros neste 53º Festival Internacional do Filme de Cannes. Mas é Estorvo, com roteiro e direção de Ruy Guerra - em sua sexta participação em Cannes - a partir do romance (?) de Chico Buarque de Holanda, o filme que faz hoje as honras principais do país na maior vitrine de cinema do planeta. O representante brasileiro foi escalado em duas sessões exclusivamente na Salle Bazin, um pequeno espaço para apenas 300 pessoas onde a maioria dos filmes é exibida somente depois de passar nos maiores auditórios. Ao não programá-lo para o Grand Théâtre LumiSre ou para o Théâtre Claude Debussy, as mega-salas do Palais des Festivals, a organização não deixa dúvidas de que o filme se enquadra em categoria não de espetáculo, mas no segmento de empenho autoral mais rígido, onde cabem obras experimentais e/ou engajadas, sob certos aspectos mais difíceis, exigindo a dose certa de intimismo. Não é demais lembrar que o belga Rosetta, Palma de Ouro de 1999, foi visto no último dia da mostra competitiva na Sala Bazin.
Eu Tu Eles, o outro longa brasileiro na seleção oficial, também fica restrito a Salle Bazin. O filme de Andrucha Waddington (Gêmeas) passa segunda-feira às três da tarde na sempre concorrida, surpreendente e charmosa mostra paralela Un Certain Regard, não competitiva mas com prestígio de sobra para abrir preciosas portas de outros festivais mundo afora. Daí a um livre corredor de exportação é questão de pouco tempo, desde que quem venda seja bastante esperto - e nós costumamos não ser. O quinteto do Brasil em Cannes se completa com três curtas metragens, em mostras diferentes. 3 Minutos, da gaúcha Ana Luiza Azedo, concorre à Palma de Ouro na categoria. Rota de Colisão, de Roberval Duarte, está na Quinzena dos Realizadores, e De Janela pro Cinema , de Quiá Rodrigues, passa na seleção de convidados da Cinefondation.
Diversão pesada na arena competitiva, com a estréia norte-americana. E surpresa geral com a mudança de inspiração e registro do ex-indie Neil LaBute, agora cooptado por Hollywood. Depois de Na Companhia de Homens e Seus Amigos, Seus Vizinhos, o misógino mais odiado pelas mulheres tenta - em termos - fazer as pazes com o público feminino na comédia romântico-noir-road movie Nurse Betty, um hilário conto de fadas que começa nos confins do Kansas e termina em Los Angeles. Aplausos prolongados ao final da projeção, mas o filme não é tão bom em sua totalidade. Tem grandes momentos. Peca por uma certa desorganização quando tenta estabelecer a coexistância dentre realidade e sonho, isto é, o realismo cru em vários momentos não encontra o tom correto para interagir com o universo fantasioso e pleno de romantismo da enfermeira Betty do título.
LaBute, na coletiva mais fazendo o gênero professor burocrata, é talentoso autor teatral já comparado a David Mammet. É um mórmon convertido (pela mulher, com quem está casado há 15 anos) que está visivelmente se divertindo - sem maldade, claro - com o que acaba de fazer, isto é, confundir a crítica. Betty redime o diretor da crueldade mental, sexista, misógina oferecida com muito talento em Na Companhia de Homens , de 97 (à disposição em vídeo no Brasil, selo Cult), e repetida em Seus Vizinhos, Seus Amigos.
Uma pena, que a caçula de Cannes tenha decepcionado. Exibido para uma platéia de jornalistas nutridos por enorme expectativa, Takhté Siah (O Quadro Negro) decepciona e é um passo atrás - aliás o único possível - na recém iniciada carreira da iraniana Samira Makhmalbaf, de 20 anos, a mais jovem realizadora da história do festival. Por mais atentamente que se busque, estão ausentes as virtudes da estréia de Samira com A Maçã, há dois anos na seção Um Certain Regard.
Enquanto prossegue o bombardeio do Kurdistão iraniano, professores ambulantes a caminnho do exílio carregam nas costas quadros-negros, buscando nas montanhas candidatos à alfabetização. Dois mestres seguem caminhos diferentes. Um deles encontra um grupo de adolescentes que tenta atravessar a fronteira com contrabando. O outro cruza o caminho de um grupo de velhos que tenta atravessar a fronteira para poder morrer na terra natal. Uma viúva com um filho pequeno se casa no caminho com o professor, mas decide não ficar com o homem.
O cinema iraniano, via de regra filosófico, lírico e recheado de significados existenciais, é interessante e desfrutável - sem exacerbações cinéfilas - quando realizado por cineastas de maturidade testada pelo passar dos anos. Como Abbas Kiarostami, acima de todos, e o próprio pai da jovem diretora, Moshen Makhmalbaf, com menor repercussão. Até o momento, a urgência de Samira só rendeu um fruto, A Maçã da estréia. Este Quadro Negro é um tédio só.





