WILMAR KLEIN
É brega, mas é ‘‘cult’’ 2: o retorno
Arquivo FolhaEm seu novo disco, Wando, uma das sumidades da cafonália nacional, relembra algumas de suas pepitas eróticasO retorno é duplo. Primeiro para aqueles que, tendo lido aqui na Folha2, há duas semanas, o meu artigo ‘‘É brega, mas é ‘cult’’’, mandaram e-mails ou telefonaram apontando ‘‘graves’’ omissões na minha lista de breguices musicais e observando que, no lugar da foto do Orlando Dias, saiu a do Orlando Silva. De fato... O Silva, sob o aspecto estritamente musical, não era brega, era apenas ‘‘careta’’ e muito chato (talvez por isso mesmo seja considerado um dos maiores nomes da MPB de antanho); brega mesmo era a pose que ele fazia ao fumar cachimbo.
Quanto aos acréscimos dos leitores (que incluem coisas das quais eu gostaria de ter lembrado, como, por exemplo, Diana, José Augusto, Benito di Paula, Gretchen, Ritchie, Sidney Magal, padre Marcelo, Tiririca, entre dezenas de outras ‘‘tralhas’’), serão incorporados – juntamente com a minha gratidão e o meu assombro (pela capacidade desses leitores de lembrar de tantas porcarias) - numa edição revista e ampliada da ‘‘Galeria Kitsch’’.
O segundo retorno não é ‘‘para’’, e sim ‘‘de’’. No caso, o de um campeão da breguice com uma extensa lista de serviços prestados ao culto à mulher – ou, mais exatamente, à conversa mole, romântica e barata, destinada a levá-la ao motel. Refiro-me ao cantor Wando, que tem CD novo na praça: ‘‘S.O.S. do Amor’’. Trata-se de um disco acústico e ao vivo (também Wando aderiu a essa praga disseminada pela MTV), e saiu pela Indie Records (o nome da gravadora já é um início de que o cantor virou ‘‘cult’’ mesmo).
No repertório, coisas manjadas como: ‘‘Fogo e Paixão’’, ‘‘Obsceno’’, ‘‘O que Eu Vou Dizer para o Meu Corpo’’, ‘‘Acho que Eu Estou Perdendo Voc꒒, entre outras desse ‘‘quilate’’, a inédita ‘‘A Próxima Vítima’’ e, de quebra, duas regravações de pagode: ‘‘Toda Mulher’’, do grupo Karametade, e ‘‘Essa Tal Liberdade’’, do Só Pra Contrariar. Nem precisa dizer que, com um repertório assim, o CD vai vender muito e a música brasileira continuará, na mesma.
Kit erótico
Apenas para a venda nos shows de Wando, ‘‘S.O.S. do Amor’’ virá dentro de um kit de ‘‘primeiros socorros’’ erótico cujos outros itens são calcinha, camisinha, batom, uma lata de catuaba selvagem e um frasco de óleo queimado com o rótulo ‘‘Mô, o carro quebrou’’ (para uso de maridos infiéis que voltam para casa tarde da noite). Na verdade, uma grande jogada de marketing, pois mostrar o kit será um ótimo pretexto para justificar a presença do cantor nos programas de auditório da TV.
Mas, por outro lado, um expediente vulgar como a própria música de Wando e tão descartável quanto ela. Nada a estranhar: a música brasileira disponível nas lojas de discos, veiculada no rádio e na televisão (e o mesmo se aplica ao pop internacional), é, em sua quase totalidade, igualmente vulgar, descartável, banal. Obviamente, não há em tal constatação nenhuma novidade, mas não se espere nenhuma mudança nesse panorama enquanto artistas como Wando (e os pagodeiros que ele regravou) continuarem a receber discos de ouro, platina e diamante pela vendagem dos seus CDs.

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