Será a perversão do gosto um dos efeitos colaterais da pós-modernidade?
Arquivo FolhaO ‘‘performático’’ Orlando Silva: um dos ícones da breguice nacional que precisa (?) ser redescobertoAlém dos discos voadores parecidos com calotas de automóveis, das pistolinhas de raios feitas de plástico vagabundo e dos endiabrados marcianos cujo visual foi copiado de uma série de figurinhas de chicle de bola americana dos anos 60 (com títulos ‘‘politicamente incorretos’’ como ‘‘Destruindo um Cão’’ e ‘‘Carne Queimando’’), uma das coisas mais legais do filme ‘‘Marte Ataca!’’ (‘‘Mars Attacks!’’, 1996), onde o maluquete Tim Burton gastou os ‘‘tubos’’ para brincar de Ed Wood (cinebiografado por ele em 94), foi, sem dúvida, a participação do ‘‘legendário’’ cantor galês Tom Jones, no papel dele mesmo. Não satisfeito, Burton reservou a Jones o ‘‘grand finale’’: um clipe ecológico-musical que é uma das coisas mais kitsch já vistas na tela.
Mas por que, afinal, fui lembrar disso? Bem... primeiro, porque todo mundo tem, por assim dizer, um pinguim de porcelana sobre uma toalhinha de renda em cima da geladeira. Segundo, porque acaba de sair no Brasil (por uma gravadora ‘‘sofisticada’’, a Trama, a mesma do último disco de Tom Zé) o CD duplo ‘‘Tom Jones Greatest Performances’’, com músicas gravadas ao vivo no programa de TV que o cantor manteve entre 1980 e 81.
Ao todo, 34 faixas com interpretações deliciosamente bregas como, por exemplo, as dos hits ‘‘Delilah’’, ‘‘Yesterday’’, ‘‘All by Myself’’ e ‘‘What’s New Pussycat?’’ (com direito àquele esfuziante e antológico ‘‘uou-uou-uou’’). E, de quebra, duetos cafonas até a medula com Dionne Warwick, Tina Turner, Gladys Knight, Stephanie Mills, entre outros. Tudo muito mal gravado.
E aí você perguntará: então, por que lançar um disco assim? Há, pelo menos, meia dúzia de respostas possíveis, mas a que interessa aqui é que Tom Jones – a exemplo de Burt Bacharach, Serge Gainsbourg & Jane Birkin (lembra-se de ‘‘Je T’Aime Moi Non Plus’’?), os Carpenters e outros ‘‘campeões’’ do ‘‘easy listening’’, do pop brega e do que os críticos, lá fora, chamam de ‘‘exótica’’ (Yma Sumac – quem diria? – voltou aos catálogos) – é objeto de uma ‘‘revisão’’ que beira a perversão.
E não é diferente no Brasil, onde ultimamente resolveram ‘‘redescobrir’’ o Reginaldo Rossi (um sub-Roberto Carlos pernambucano) e achar que Wilson Simonal é um grande nome da música popular. Coisas assim... Mas como explicá-las? Talvez os fatos, ao se repetirem, se repitam mesmo como farsa, como piada para consumo de um público enfastiado. Talvez a perversão do gosto seja uma das marcas – ou efeito colateral – da pós-modernidade. Talvez (como li, outro dia, na homepage de uma revista de música ‘‘cabeça’’) ‘‘Música é arte, Musak é ciência’’.
Seja qual for a explicação, o que se constata é que virou coisa ‘‘chique’’ gostar de ‘‘easy listening’’, redescobrir cantores kitsch, do mesmo modo que, entre os cinéfilos, cresce a cada dia o número de fãs de filmes trash e camp. É algo que merece estudo aprofundado, mas, enquanto isso não acontece, dedico ao distinto público as belas páginas musicais ‘‘Babalu’’, com Angela Maria, e ‘‘Cucurrucucu, Paloma’’, na voz de Miguel Aceves Mejia.
Galeria kitsch
Como ‘‘miséria pouca é bobagem’’ – e, não sei se com você acontece o mesmo, eu tenho grande facilidade para lembrar de porcarias –, vai aqui, como modesta contribuição ao acervo da breguice nacional e internacional, uma lista com gente que precisa (?) ser redescoberta, exumada, reavaliada, merecer discos-tributo e outros procedimentos do gênero:
Odair José, Evaldo Braga, Paulo Sérgio, Antônio Marcos, Waldick Soriano, Márcio Greick, Morris Albert, Trio Esperança, Trio Irakitan, Trio Nagô, Nilo Amaro & Seus Cantores de Ébano, Vicente Celestino, Orlando Dias (este era ‘‘gênio’’: cantor feio e de voz anasalada, rasgava o paletó no palco, ajoelhava-se e agitava o lenço, fingia atirar pedras na platéia, entre outros recursos ‘‘performáticos’’), Evaldo Gouveia & Jair Amorim, Carlos Galhardo, Francisco Petrônio, Albertinho Fortuna (conheci um barbeiro no Mercado Municipal de Curitiba que ‘‘enfeitava’’ a vitrine de seu estabelecimento com as capas dos LPs deste cantor de bolerões), Gregório Barrios, Sarita Montiel (‘‘La Violetera’’), Liberace, Ray Coniff, Genival Lacerda, Cauby Peixoto, Ivon Cury, Agnaldo Rayol, Moacir Franco, João Só (‘‘Menina da Ladeira’’), Waldirene (a ‘‘Garota Papo-Firme’’), Nalva Aguiar, Wanderléa, Eduardo Araújo (o ‘‘Bom’’), Paul Anka, Brenda Lee, Doris Day, Sérgio Mendes, Libertad Lamarque ... Chega? Lindomar Castilho, os Pholhas, Don & Ravel, Jane & Erondy, Demis Roussos, Engelbert Humperdink, Gigliola Cinquetti, Giani Morandi, Pepino di Capri, Teixeirinha, Amado Batista... Vixe, me deu até urticária!
P.S.: E, para quem quiser colaborar na ampliação desta lista ou discordar dela, o meu e-mail é: [email protected]

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