É brega, é chic, é cult
O que para muitos é uma breguice sem fim, pode parecer para outros um universo viável e fascinante. O brega e o chique, assim como o bem e o mal, caminham juntos, ora in , ora out , e muitas vezes transcendem a moda.
Mas, antes de mais nada, vamos às apresentações. Qual sua graça? Você não é aquele? É que eu, ‘‘enquanto’’ pessoa, gostaria de dizer algo a ‘‘nível de’’ proposta tipo assim, saca, fofinho? Tem coisa mais comum do que achar chique a expressão ‘‘a nível de’’ ? O compatível com ‘‘o nobre colega me concede um aparte?’ e ‘‘me permite a honra desta contra-dança?’.
Ainda podemos ouvir essas expressões na TV brasileira, que se transformou num paraíso brega com direito a novela mexicana. Mas, olhe para a câmera e diga que nunca sentiu vontade de dar uma olhadela ‘‘no Sílvio’’, supra-sumo do brega nacional? E a baixaria do Faustão e as gosmentas pegadinhas? Jura que nunca parou para tentar rir? E o brilhantismo do texto de ‘‘Sai de Baixo’’ que reúne na platéia colunáveis e socialites?
Chacrinha é cult . E as blondies Hebe, Ana Maria Braga e Claudete Troiano? Ah! a sutileza de Serginho Groissman, Jeff Smith, Regina Casé... E que tal o ‘‘Alô Cristina’’? Zé do Caixão é o cult do cult . E Falcão é mesmo tão brega? É chique rir do Tiririca, o nosso eterno Chaves...
Chique é assistir a documentários da tevê inglesa, usando um robe de chambre acetinado tomando chá de jasmim e soltando baforadas de cigarro mentolado? Há quem ainda fume com o mesmo glamour e resplandescência dos anos dourados.
Nada como estar na moda. Quer coisa mais in do que salto plataforma com meia e calça boca de sino? Pavorosos nos anos 60, divinos nos anos 70. O mesmo acontece com o fake , que foi brega nos anos 60, hoje peça chave numa coleção de Versace. Vide o look selvagem , as imitações de peles de animais, ou os sinthetic-zoo tão na moda. Argh! Cadê meu modelito Lagerfeld, Cardin, meu Valentino e minha bolsa Chanel de correntinha? Coisa de perua que usa topete e quilos de maquiagem? É chiquérrimo carregar cascatas de ouro e jóias espalhados pelo corpo? Algumas glamourosas poderiam até encher com seus berloques uma autêntica Louis Vuitton.
O chique a gente nota nos pés. É só olhar para Constanza Pascolatto. Como ela deve ficar nas legítimas sandálias de borracha que já foram a flor da cafonália e que hoje são cult para muitos pós-modernos?
Tomar café com o mindinho levantado. Um horror, principalmente se a unha do dedinho for a única imensa entre as outras nove. É ‘‘dez’’ pintar as unhas com marrom, preto e marinho. Retrô-deprêé tão chique . É no mínimo minimalista fazer o gênero Mortícia Addams em transparências fashion. É tão dark-clean não é mesmo?
Casa de gente chique geração 90 deve ter um revival dos anos 50. Vaso de murano, bandeja de asa de borboleta, pinguim de geladeira, cachorrinho de porcelana, bichinhos de louça pintada e anõezinhos no jardim. Pavorosos ícones do kitsch , hoje cults disputados por colecionadores. O must das colunáveis é servir em copos e jarras de plástico colorido tão difíceis de transportar de Miami.
Saltinho carrapeta na bota de vaqueiro, chapéu estilo Bonanza e cinturão tipo Dallas com fivela de metal, risíveis de outrora, são obrigatórios nas festas country , gatona. Tem até um kit do look agroboy : caminhonete importada, relógio de ouro, CD de João Paulo e Daniel e uma cuequinha do Batman. Tem gente que prefere ouvir Oscar Peterson ou Scott Joplin enquanto lê o Jabor pela Internet. Outros compram livros por metro para combinar com a estante tubular. Um santuário onde reinam seus acrósticos e a obra de Olavo Bilac.
Felizmente a TV a cabo nos diverte. Aquelas grandes lutas de box via satélite e toda aquela gente chique, de casaco de pele de animais massacrados, gastando fortunas em apostas. Mais chique, só mesmo luta livre na lama ou no gel. Éca! Dá gosto ver ton-sur-ton na maquiagem da Maria do Bairro, tão bem vestida, chorando copiosamente.
(C.A.A.)

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