E ALICE NASCEU NA ESCOLA...
Primeira montagem da Escola Municipal de Teatro, ‘‘Alice Através do Espelho’’, ganha a empatia do público e continua em cartaz até março
Francelino França
Londrina

Cesar AugustoCena de Alice...: espetáculo intenso e contraditório cria real cumplicidade com o públicoLondrina, cidade conhecida internacionalmente em função dos Festivais de Teatro, merecia há tempos escolas direcionadas à formação de atores. E para isso, o curso de graduação em Artes Cênicas e o curso oferecido pela Secretaria Municipal de Cultura chegaram em tempo. A importância para a formação de atores e profissionais das artes cênicas é fundamental.
A escola apara a aresta do exibicionismo, dá noções de ética profissional e de disciplina. Uma escola para um ator estimula o processo contínuo da criatividade e coloca em maturação todos os elementos do fazer teatral. Dá noções de treinamento corporal e oferece ao aluno a oportunidade de conhecer um sistema, um método de trabalho.
A importância da escola como elemento de formação se revela na primeira montagem do grupo da Escola Municipal de Teatro, com o espetáculo Alice Através do Espelho, a partir da obra do inglês Lewis Carrol: Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871). A adaptação do texto foi feita pelo tradutor e escritor Maurício Arruda Mendonça.
A sobreposição dos textos preservou a característica principal de Carrol, o domínio do nonsense. Na criação deste terceiro texto, as ‘‘Alices’’ se fragmentaram numa peça, resultando num puzzle (quebra-cabeça). Dar o mesmo significado artístico que os originais foi o maior desafio de Mendonça.
Alice, a menina que desperta dos sonhos com ares de pesadelo. Alice, a criança se transformando em mulher. Essas são as chaves para o mundo de Alice Através do Espelho, espetáculo que o grupo da Escola Municipal de Teatro está apresentando até o início do mês de março e já foi visto por mais de 700 pessoas desde que estreou em dezembro. Cada sessão é destinada a 30 pessoas, no máximo.
Logo na primeira cena, numa súbita queda, Alice desce por um túnel e o público é convidado a seguir o itinerário onírico da garota. Seria esse o regresso ao útero materno ou apenas um outro ponto de vista da realidade?
A partir desta descida, o diretor Paulo de Moraes propõe ao público participar de uma aventura por intermédio dos questionamentos de Alice. A concepção do espaço cênico é um labirinto móvel, que se transforma a cada cena, ou a cada sonho, ou a cada questionamento. As soluções cênicas encontradas por Moraes são criativas, como o teto que abaixa ou o escorregador através do espelho. Perde-se a sensação de espaço, como se o público tivesse andado quilômetros. Mas, afinal, quem se cansa ou conta os passos durante os sonhos?
Esse jogo se dá nas profundezas. No mundo subterrâneo de Alice monstros se alongam, as comidas são tóxicas, tudo se mistura. O relógio marca sempre 5 horas da tarde. O público deve ficar esperto. Em cada bloco do sonho surge um cenário novo.
ReciclagemEm Alice..., repetem-se as parcerias de Paulo de Moraes, com o já citado Maurício Arruda Mendonça e o figurinista João Marcelino. Até certo ponto, eles imprimem à montagem características conhecidas do público nas peças do grupo Armazém Companhia de Teatro. O submundo de Alice arrasta tudo que pode ser reaproveitado do mundo concreto. O cenógrafo Gelson Amaral Gomes elegeu também os recursos da reciclagem. A estética da recriação é seu ponto de referência.
A primeira montagem da Escola Municipal de Teatro é resultado do curso oferecido pela Secretaria de Cultura. A montagem se destaca pela empatia com o público. A restrição de 30 pessoas por apresentação contribuiu para isso. Essa proximidade com o fazer teatral revelou uma sensação imediata: a ansiedade dos atores é notória. Entre uma cena e outra, até a metade da peça, os atores demonstraram estar em alta tensão física. A sonoplastia muito alta prejudicou, por vezes, o entendimento de um texto tão enigmático.
Cara a cara e corpo a corpo com os atores, conseguíamos sentir sua respiração, sendo possível até ver através dos olhos. A Alice interpretada pela atriz Lívia Sprizão é movida por uma aparente excitação e tensão. Ao exagerar suas ações, ela se perde num emaranhado e multiplicidade de gestos. Imprime uma hipertensão prejudicial. O encontro com o autodomínio, certamente, virá com o tempo. O ator Rodrigo Fregnan (Lewis Carrol) nem sempre se sentia à vontade no colarinho engomadinho.
Se há tensão nos atores nas primeiras cenas, nas subsequentes, os atores conseguem escapar de muitos clichês interpretativos e seguir no labirinto proposto por Lewis Carrol. Com um elenco constituído por 11 atores recém-formados, nem todos estão verdadeiramente prontos para assumir um personagem. Em parte, até por falta de entendimento do universo complexo da construção de um personagem.
Mas Alice Através do Espelho é um espetáculo intenso e contraditório. Cria uma real cumplicidade com o público. É um jogo que vai se harmonizando à medida que as cenas se desenrolam. Em Alice...o projeto ousado é coroado pela jovialidade e energia do grupo, numa espécie de entrega que só existe no primeiro trabalho.
A importância de Alice Através do Espelho, não apenas como um espetáculo feito por pessoas interessadas na celebração da fantasia, mas também pode ser considerado o início da agonia do amadorismo teatral londrinense.
Alice Através do Espelho, espetáculo da Escola Municipal de Teatro, a partir da obra de Lewis Carrol. Adaptação de Maurício Arruda Mendonça, direção Paulo de Moraes. De quinta a domingo, às 21 horas, na Rua Paraíba 533, no barracão ao lado do Empório Guimarães, em Londrina, até dia 8 de março. Reserva de ingressos pelo fone (043) 323-0945. Preço R$ 10,00 (contribuintes da campanha ‘‘Dar é uma questão de impulso’’ têm 50% de desconto).

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