Quando estreou, em novembro, listando providências básicas de como prevenir acidentes domésticos, o quadro ‘‘E agora, doutor?’’, apresentado por Dráuzio Varella no ‘‘Fantástico’’, ameaçava repetir a velha fórmula dos programas educativos mais óbvios: útil, sim, mas chaaato. Mero rebate falso.
Azeitada - já tinham feito juntos a série anterior do médico sobre o corpo humano - a equipe completada pela produtora Karina Dorigo e pelo cinegrafista Gilmário Batista em pouco tempo conseguiu desenvolver uma linguagem ágil, escorada em duas medidas práticas: sair do estúdio e movimentar a câmera.
‘‘Queria aproximar o Dráuzio do público, até para as pessoas fazerem perguntas’’, conta Karina, revelando também que a câmera ‘‘nervosa’’ de Gilmário persegue o estilo do seriado americano ‘‘Plantão Médico’’. O resultado é um sucesso.
Gravando em frente à Igreja de São Bento, pleno centro de São Paulo, na última quarta-feira, o trio se surpreendeu com a quantidade de pessoas querendo cumprimentá-los. ‘‘Eles inclusive sabem o nome do Dráuzio, que não é muito fácil. É que, embora não seja repórter, ele tem uma empatia muito grande’’, elogia a produtora.
Cancerologista, 58 anos, autor do livro ‘‘Estação Carandiru’’, Varella credita justamente à experiência de doze anos atendendo no presídio a facilidade de comunicação com camadas de população sem acesso ao pronto atendimento de quem mantém em dia o pagamento de um bom plano de saúde. ‘‘Ali a medicina se faz com um estetoscópio e mais nada. Foi onde acabei descobrindo medidas simples que ajudam bastante’’, conta.
De fato. Logo no início da série um programa ensinou como imobilizar vítimas de fraturas na coluna. No dia 23 de dezembro uma reportagem de poucos segundos mostrou como um rapaz de Belo Horizonte salvou o vizinho seguindo as instruções. Terminava com o médico do hospital para onde o homem foi levado elogiando o socorro de emergência.
Partindo do princípio de que nas grandes cidades o socorro médico é mais fácil a equipe do ‘‘E agora, doutor?’’, mesmo baseada em São Paulo, tem buscado regiões rurais, onde hospitais podem ficar tão distantes quanto uma viagem em lombo de burro ou uma travessia de barco. Numa colônia de pescadores de Campo Maior, município próximo de Teresina, no Piauí, Dráuzio mostrou como proceder ao engasgar com espinha de peixe.
As tomadas vão ao ar no programa deste domingo, num quadro inteiro destinado a engasgamentos. Perto dali foi produzida boa parte do episódio sobre afogamentos, exibido domingo passado. A outra foi feita em Rio Negro, a duas horas de Manaus, locação do quadro sobre picada de cobra.
‘‘As situações vão surgindo e temos que aproveitar. Uma vez encontramos no meio da estrada um homem que trabalhava numa pedreira e foi atingido por uma lasca de pedra. Entrou no quadro sobre ferimentos’’, lembra Karina, que, por conta dessa sistemática de trabalho, já acumula 85 fitas gravadas que não libera para reutilização. ‘‘Vá que para o próximo programa eu precise de um caso que está na fita número quatro?’’, alega.
O quadro, que fica no ar até o fim de fevereiro, propõe soluções simples para acidentes corriqueiros. ‘‘Tem gente que, ao se ferir, passa mertiolate. Outros usam água oxigenada. Cada um faz uma besteira diferente quando o mais simples, barato e acertado é limpar o local com água e sabão’’, ensina Varella.
Atinge, assim, todo tipo de público. ‘‘Emergências podem acontecer com qualquer um’’, argumenta o médico, propondo um desafio. ‘‘Junte dez pessoas com nível de escolaridade superior e pergunte o que elas fariam caso queimassem a mão numa frigideira. Provavelmente não enrolariam a queimadura em folhas de bananeira. Mas correriam à farmácia atrás de pomadas caras. Poucos sabem que o melhor é colocar água gelada.’’
Para todos os que de fato não sabiam, vale avisar. Nas próximas semanas, o ‘‘E agora, Doutor?’’ vai mostrar o que fazer em casos de infarto, intoxicação, derrame cerebral e desmaios.

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