Há unanimidades indiscutíveis no reino da música popular. Uma delas celebra Cole Porter e os irmãos George e Ira Gershwin como os maiores compositores do século 20.
O CD ‘‘Canções, Versões’’, que chega às lojas pelo selo Geléia Geral, homenageia o repertório legado por eles reunindo 14 músicas interpretadas por nomes como Chico Buarque, Rita Lee, Caetano Veloso e Cássia Eller.
O projeto tem como novidade o fato de trazer as composições vertidas para o português pelo jornalista e letrista Carlos Rennó, que assina todas as traduções com exceção de ‘‘Você é o Mel (You’re the Top)’’, feita pelo poeta Augusto de Campos.
O resultado é controverso, e não será surpresa se a recriação permissiva deixar os admiradores das letras originais de cabelos em pé. Cole Porter (1891-1962), George (1898-1937) e Ira Gershwin (1896-1983) foram gigantes numa época em que a qualidade da canção norte-americana pairava nas alturas, elevada por um time de sujeitos inspirados que incluía ainda Irving Berlin, Johnny Mercer, Harold Harlen, Jerome Kern, Richard Rodgers (e seu parceiro Lorenz Hart) e Arthur Schwartz (na dupla com Howard Dietz).
Para o CD, Rennó deixou de fora as músicas mais conhecidas dos compositores – caso de ‘‘Night and Day’’ e ‘‘Begin the Beguine’’ de Porter; e ‘‘Rhapsody in Blue’’ e ‘‘The Man I Love’’ dos Gershwin –, mas a seleção não poupou clássicos absolutos. O disco soa monótono em algumas passagens, talvez por uma certa profusão de cordas nos arranjos orquestrais, que estiveram sob a batuta de Nelson Ayres, Dori Caymmi, Cláudio Leal Ferreira e Ruriá Duprat.
Com produção de Rodolfo Stroeter, a empreitada tem o mérito de apresentar os gênios da canção para um público novo, distante cada vez mais da música que embalava platéias entre os anos 20 e 40. Entre as interpretações, o destaque disparado traz Elza Soares num duo com Chico Buarque na brejeira ‘‘Façamos/Vamos Amar (Let’s Do It/Let’s Fall in Love)’’, cuja letra apregoa num trecho: ‘‘Os louva-deuses, com fé, fazem / Dizem que bichos-de-pé fazem / Façamos, vamos amar / As taturanas também fazem / Com ardor incomum / Grilos, meu bem, fazem / E sem grilo nenhum / Com seus ferrões, os zangões fazem / Pulgas em calcinhas e calções fazem / Façamos, vamos amar’’.
Paula Toller, do Kid Abelha, é convincente em ‘‘Quem toma conta de mim (Someone to watch over me)’’. Rita Lee também se sai bem em ‘‘Blablablá (Blah, Blah, Blah)’’, trocando a voz frágil de seus discos por uma vigorosa performance. Coube a Tom Zé, entretanto, cantar uma das faixas mais bem solucionadas no casamento música-letra em ‘‘Você é o Mel (You’re the top)’’, na qual Cole enfileira referências.
A licença poética, aqui, vai ao extremo na versão de Augusto de Campos: ‘‘Você é / Meu Mahatma Ghandi / Você é / Um Napoleão Brandy / Luz do Sol que vai quando a noite cai na Espanha / É uma boa ducha / O cachê da Xuxa / O melhor champanha / É um toque / de Boticelli / Hitchcock / Com Grace Kelly’’... e por aí vai.
A levada bossa-nova predomina na maioria dos arranjos. O tratamento jazzístico aparece em ‘‘A Lorelai (The Lorelei)’’, dos Gershwin, cantada por Mônica Salmaso, eleita a ‘‘mellhor cantora’’ de 99 pela Associação Paulista de Críticos de Arte. A mesma abordagem reveste ‘‘A Moça mais Vagal da Cidade (The Laziest Gal in Town)’’, na voz de Jussara Silveira. Caetano Veloso foi o escolhido para interpretar a famosa ‘‘Que de-lindo (It’s de-lovely)’’, que teria sido inspirada no Rio de Janeiro durante um amanhecer na Baía da Guanabara, em 1935.
O episódio é contado num fragmento de ‘‘O Estrangeiro’’, uma das grandes canções de Caetano nos anos 80 e que ganha aqui uma citação. Na última estrofe da versão, ele diz: ‘‘Então, quando eu beijar você / Me diga assim, minha zabelê: Que deleite / que delícia / Que delírio, que delíquio / Que dilema, que delito, que dilúvio / Que de-lindo!’’
Além de todos os citados, o disco traz ainda a participação de Ed Motta, Zélia Duncan, Sandra de Sá, Jane Duboc e Carlos Fernando.

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